O Melhor Juiz do Brasil!

Dono de um estilo próprio e graças as suas atitudes ousadas em campo pode ser o melhor juiz do Brasil.

 

Anda armado e, quando é preciso, briga de revólver na mão. Mas em campo sabe levar uma partida, dialoga com os jogadores, impõe sua autoridade e não tem medo de nada. Nem de usar um pouco de laquê para pentear seus cabelos louros. O estádio estarrecido com a cena. E ninguém sabia de tudo o que estava acontecendo lá embaixo.

– Não me encha o saco, Chevrolet! Xô, sai para lá. Olha o cartãozinho…. Goleiro, qual é a  tua? Se quiser, pegue meu apito. Pegue, pegue! Ora, quero que vocês….

Colocou as mãos na cintura, rei do gramado. Indiferente à raiva dos jogadores e a aflição da equipe adversária, ficou rindo sozinho, enquando o craque batia de novo o pênalti que, pela segunda vez, mandava repetir.

Todos se espantaram com o espetáculo quase inédito no futebol brasileiro, embora o juiz apenas cumpria a lei do jogo:  o goleiro não pode se mexer antes da cobrança.

O juiz faz isso de uma maneira às vezes engraçada e, sem dúvida, está criando um estilo próprio. Pouco a pouco, vai se tornando o árbitro mais falado do estado graças as suas atitudes ousadas em campo – ora xinga freneticamente os jogadores e expulsa quatro numa partida só (como no clássico do returno, quando recebeu um rádio de prêmio por sua atuação), ora passa noventa minutos brincando com eles e a torcida nem percebe sua presença.

Outro dia, num jogo, chamou de lado os goleiros.

– Escutem, quer ver se vocês vão repetir o vexame do goleiro Valdir lá em Buenos Aires. Foi um papelão. Temos que acabar com o sobrepasso. Se vocês errarem, não se preocupem. Eu faço uma advertência para constar. Mas se reincidirem vai ter, hein?

Em qualquer jogo, ouve a velha reclamação: Não foi falta!

E responde sempre do mesmo jeito:

– Bem, e daí? Não foi, mas eu marquei. Você não pode fazer nada.

Seis de arbitragem profissional, 36 anos de idade, quase 1,90 metro, 83 quilos, ginasial completo, casado, dois filhos.

Em breve pode ocupar o posto de grande estrela do apito, possivelmente vago no ano seguinte com a anunciada aposentadoria do número um. Não lhe faltam qualidades, nem quem as reconheça.

 – Quando tenho um jogo duro, o escalo. E durmo tranquilo diz o presidente do departamento de árbitros.

– É um dos melhores juízes que já conheci. Às vezes se perde em discussões com os jogadores, mas essa não seria mais uma virtude sua? Diz um grande craque: Com ele, a gente pode reclamar sem correr o risco da expulsão.

– Os juízes se impõem, no futebol brasileiro, não são os excessivamente técnicos, mas os que têm pulso e demonstram sua autoridade em campo, como o antigo árbitro Mário Vianna, por exemplo.

Este árbitro é dessa escola e por isso vai ficar (um grande comentarista da época).

– O cara é um sarro. Nunca me esqueço de um jogo no interior, onde estive emprestado.

Estava 0 a 0 e era uma dessa partidas horríveis que fazem o  torcedor voltar para casa. Aí ele chegou para nós e disse: “vamos parar de dar balãozinho e chutar para os lados. Sr vocês não jogarem futebol decente eu encerro este jogo.” E não é que o jogo melhorou? (um meia e treinador de sucesso).

(….)

Segue amanhã…..


Neste post não coloquei algumas informações, mas deixei algumas dicas que podem levar a figura oculta do Melhor Juiz do Brasil!.

Reproduzi uma pequena parte do texto de uma revista esportiva famosa e, mesmo com tudo sendo digital, continua sendo publicada.


Vida que segue e até qualquer dia!


Imagem destacada:

El Sr. Oleg Shuplyak es un pintor surrealista ucraniano cuya obra se centra en retratos de personalidades famosas en la que los objetos y paisajes comunes son sus caras distintivas en forma combinada.

http://www.ebah.com.br

Não aceito os covardes!

Conversando com o árbitro Claudio Vinicius Rodrigues Cerdeira sobre a arbitragem de outrora e ficamos tentando comparar o incomparável. Neste agradável diálogo, o nome do Cel. Aulio Nazareno, presidente da Comissão Brasileira de Arbitragem de Futebol – Cobraf na decada de 80/90 surgiu…

Pronto! Já tinha o sexto post…

Cruzamos com este grande dirigente em várias oportunidades. Numa delas foi em 1981, durante o curso de árbitros da FPF, do qual era um dos alunos. Na outra, igualmente importante, durante a fundação da Associação Nacional dos Árbitros de Futebol – Anaf, em 25 de outubro de 1997, na Sede da Policia Federal – Centro do Rio de Janeiro.

Uma pena que este importante dirigente morreu alguns dias depois da fundação da referida entidade dos árbitros, em 06 de novembro, aos 73 anos, em conseqüência de um enfarte. Foi sepultado no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, sem ver publicado um dos livros mais relevantes sobre o tema arbitragem (veja foto do dirigente e do livro em destaque).

Na vida esportiva foi presidente da Comissão Brasileira de Arbitragem de Futebol e da Comissão de Arbitragem da Federação do Rio de Janeiro, de 1994 a 1995. Naquela época entre as mudanças que o coronel pretendia implantar no futebol carioca estava a criação de um quadro exclusivamente feminino e de um módulo de auxiliares, que atuariam somente como assistentes (conhecidos como bandeirinhas naquela época).

No curso de árbitros, este militar, de cabelos brancos, discreto é o Coronel Aulio Nazareno – presidente da Comissão Brasileira de Arbitragem de Futebol, durante sua estadia para a cerimônia de abertura de mais um curso de arbitragem promovida pela FPF deu uma entrevista que foi publicada no jornal A Gazeta Esportiva, em 11 de novembro de 1981.

Alto, inspira e transpirava respeito e credibilidade, durante sua apresentação nos disse que a arbitragem de futebol é uma das atividades mais fascinantes do mundo.

Leiam abaixo resumo do texto publicado, sendo que parte dele foi alvo do diálogo com o Cegonha (Cerdeira):


Ressaltou a presença de grandes plateias, lembrou que até as beatas deixam de rezar para um comentário sobre o futebol. Garantiu que não há explicação sociológica para esse comportamento:

“Como explicar ou definir o que felicidade?”

“O futebol é um alimento. Cerca de 90 % do público que comparece aos estádios não tem dinheiro para viver bem. Os torcedores acreditam no futebol e até vivem por ele. E nesse meio que muitos jovens que buscam cursos de arbitragem irão entrar. Os fatores que formam o futebol, aqui no Brasil, são imagináveis. Os árbitros resistem também as pressões  e críticas de uma grande legião de insatisfeitos. Os árbitros detêm nas mãos a maior somatória de poder, que nenhuma outra pessoa possui. Os árbitros podem expulsar jogadores que ganham 4 milhões de cruzeiros por mês. Impedem a entrada de médico em campo, a polícia só entra quando os árbitros autorizam e vala mais os relógios do árbitro que do presidente da república, se ele estiver no estádio.

“Durante 90 minutos de jogo, os árbitros possuem apenas dois amigos: os auxiliares. Estão em permanente análise dos torcedores. O futebol tem coisas incríveis, consegue numa arquibancada, aproximar o general do gari…”

“O futebol consegue manifestações surpreendentes. Uma vez no colégio militar precisamos de muitas alas de um maestro para que o Hino Nacional fosse cantado afinado e correto. Nos estádios, os coros foram criados na hora e com perfeita afinação. Quando estou ao lado de amigos espanhóis e a torcida saúda os árbitros, eu digo que o povo esta cantando: vamos à luta… vamos à luta…”

“Os árbitros trem que resistir a tudo isso. A televisão mostra os principais lances para análises, mas os árbitros possuem frações de segundos para as decisões”.

“É claro que erram e quando isso acontece eles roubam alegrias. Tiram os sorrisos daqueles que foram os melhores. Mas daí a entrar no terreno da desonestidade vai uma distância grande. Os árbitros cometem falhas e admito que isso é terrível. E como se alguém jogassem areia numa máquina industrial…”

“Os árbitros têm que ter disposição física, devem estudar é acima de tudo ter coragem. Coragem é o grande ponto…”

“A coragem de arbitrar corretamente é indispensável. Não aceito covardes. Admito que em muitas situações as pressões são incríveis, mas não impossíveis de serem suportadas. Qual o árbitro que morreu por ter sofrido alguma agressão?”

“A mais dolorosa agressão é aquela que os árbitros fazem para eles mesmos, quando fingem não ter visto infrações…”

“Os bons árbitros são aqueles que não se deixam fascinar pelo poder. Só encontraram o sucesso aqueles que gostam inteiramente da arbitragem. Os árbitros são importantes, decidem tudo e milhares de pessoas podem chorar ou sorrir, dependendo das atuações dos apitadores. As decisões devem ser corretas, dentro da lei, justas…”

Aulio Nazareno acha difícil a presença de mulheres arbitrando, mas não é contrário: “Prefiro esperar um pouco mais para um pronunciamento oficial. Mas eu nunca sou contra as mulheres…”

“Apesar de todos os problemas ocorridos no Rio de Janeiro, quando os árbitros estão sendo acusados levianamente – nada foi provado – sinto-me à vontade para olhar os olhos de jovens sonhadores e garantir que vale a pena ser árbitro. Os grandes homens são aqueles que enfrentam grandes desafios. Erros são normais, cabe lutar para cometê-los. E a coragem de vencer o medo…”

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Sinopse do livro
Este livro reafirma a credibilidade da arbitragem brasileira, a qual ele considera como uma das melhores do mundo. Serão encontrados nele assuntos variados: o que é necessário a um árbitro de futebol? Como se preparar para uma partida? Constam também alguns casos pitorescos, as mudanças das regras, a evolução da arbitragem, as reuniões da Internacional F.A. Board, e as decisões da FIFA. O autor de forma simples revela enfim, suas descobertas e seu aprendizado acumulado ao longo de muitos anos à frente da arbitragem. Este livro de linguagem acessível e de fácil entendimento para os desportistas em geral, torna-se indispensável principalmente ao árbitro de futebol

 


Vamos em frente até qualquer hora!


Referências

  1. Texto publicado na Gazeta Esportiva, de 11/11/1981
  2. Folha de São Paulo, AJB, RJ – 06/11/1997
  3. Reproduzido por wanderleynogueira.com.br, em 08/02/2014
  4. Foto: print da entrevista reapresentada globoesporte.globo.com/bau-do-esporte.

Um “Alemão” como instrutor…

Dulcidio Wanderley Boschilia, nasceu em São Paulo, no mês de janeiro de 1938 ou 39 e faleceu em 14 de maio de 1998, foi um árbitro de futebol, policial militar e advogado brasileiro.

Como disse no segundo post do Apito Oficial, foram vários instrutores de arbitragem da Turma 1981/82 da Escola de Árbitros da Federação Paulista de Futebol e um deles é inesquecível.

Estávamos na sala, quando o diretor Dirceu Fernandes fez a abertura dizendo que receberíamos um árbitro em atividade e pediu que entrasse o palestrante.

Naquele momento entrou Dulcídio Wanderley Boschilia foi um dos árbitros mais respeitados e renomados de todos os tempos, mesmo não tendo sido árbitro FIFA, o Alemão apitou duas decisões nacionais (1975 e 1988),  sete decisões em São Paulo (1974, 75, 77, 81, 83, 86 e 87, uma do Mineiro 1985 e uma no Campeonato Baiano, em 88….

Entrou e seu carisma pode ser notado por todos os alunos que sonhavam um dia entrar nos campos de futebol e, quem sabe, poder se aproximar um pouco dos que eram considerados os “Cardeais do Apito”.

Ali estava um deles, com quase 2 metros de altura entrou dizendo:

“Me convidaram para dar aula hoje e só vou pedir para que não perguntem sobre as regras do futebol, pois não as conheço como muitos, o que sei é controlar 22 marmanjos em campo !”

Durante a aula, muitas histórias sendo contadas; passagens pitorescas; formas de controlar uma jogada e cito uma interessante. Vou reproduzir apenas dois dos causos contados:

1 – Numa cobrança de córner (tiro de canto) o time estava ganhando e o jogador ia devagar para cobrar. Gritei para que ele fosse mais rápido, e ele fingiu que não era com ele…. Avisei os atacantes… Fez o sinal e quando a bola saiu ele marcou uma falta do ataque e disse para todos: continue a demorar a cobrar que vou marcar falta em todas…. Nos outros, a cobrança sai dentro do que a regra determina…..

2 – Um jogador caiu simulando estar com dor, mas percebi que ele estava tentando ganhar tempo…. peguei o jogador pelas mãos, pisei no pé e levantei… ai a dor realmente veio…..

Foram tantos causos que nem percebemos a rapidez das aulas… Sem dúvida, o “Alemão” como era chamado foi uma das grandes figuras da nossa carreira.

Durante vários colaborei na organização das competições do CASSASP – Clube dos Suboficiais e Sargentos da Aeronáutico de São Paulo, no bairro de Santana e em uma das finais, o Alemão compareceu e o jogadores nem abriram a boca durante aquela decisão. Podemos dizer que deu um tradicional “Show” de apito!

A seguir a biografia de um dos instrutores da minha turma de árbitros, cujo patrono foi “Abel Barrozo Sobrinho”, este também vai aparecer neste Apito Oficial….

Fonte: http://wikivisually.com/lang-pt

Dulcidio Wanderley Boschilia, nasceu em São Paulo, janeiro de 1938 ou 1939 e faleceu em 14 de maio de 1998, foi um árbitro de futebol, policial militar e advogado brasileiro. Foi tio-avô de Boschilia, meia do Monaco.

Sua Carreira!

Polêmico por seu jeito enérgico e disciplinador, era considerado imparcial pela maioria dos clubes[3] (mesmo sem nunca ter negado ser são-paulino) [4] e sempre era lembrado para jogos que envolviam um clima tenso.[5] “Falam que sou são-paulino porque um dia carreguei a bandeira do São Paulo no estádio”, contou, em 1987. “Tenho simpatia pelo São Paulo, mas não passa disso. Fora de campo, posso ter minhas preferências, mas lá dentro não: sou árbitro.”[6] É o mesmo discurso que ele já fazia em 1974: “Todo mundo sabe: sou são-paulino. Por que vou esconder? Não estaria neste meio se não gostasse de futebol, e quem gosta torce para algum clube. Mas torço assim. Lá dentro, eles que se danem. Se estou apitando, não quero nem saber. Se estou vendo o jogo da arquibancada, só fico de olho no juiz.”[1]

Começou a carreira de árbitro profissional em 1964, depois de ser goleiro, conhecido como Wand, no Anay, um time de várzea.[1][7] Nessa época, quase foi levado por José Poy para o São Paulo.[5]”Vi o Dulcídio jogando na várzea em 1963, quando estava me iniciando como técnico dos juvenis do São Paulo”, lembrou Poy, em 1974. “Ele tinha realmente grandes qualidades. Se fosse um pouco mais jovem [já tinha 25 anos], poderia se transformar num goleiro de primeira.”[1] Dulcídio começou a apitar jogos quando estava na reserva do São João Clímaco, também um time de várzea, e não havia outra pessoa para ser o juiz.[1] Foi o presidente desse clube que o aconselhou a fazer o curso de arbitragem da FPF.[1] “Eu nem sabia que existia esse curso”, reconhecia o árbitro. “Mas fui. E fiquei.”[1]

Já diplomado no curso e por ser policial, apitou partidas de futebol na Casa de Detenção, em São Paulo, algumas vezes envolvendo detentos que ele tinha prendido, mas era respeitado por eles apesar disso. “Até me cumprimentavam”, contaria, em 1986. “Diziam que eu era gente. Isso, na linguagem da bandidagem, falando de um tira, é altamente significativo.”[8] Apesar de ter passado pelo DOI-CODI entre 1970 e 1972, na época da ditadura militar, não participou de torturas.[9] “Eu nunca dei um tapa sequer em alguém”, dizia, sobre o período no órgão militar. “Minha função era burocrática.”[7] Também fez parte da ROTA.[7]

Também apitava jogos internos em clubes e entre times de várzea, até passar a ser escalado na Segunda Divisão paulista, em 1966. Nessa época,[10] apitou um jogo entre Penapolense e São Bento de Marília, em Penápolis, pela Terceira Divisão paulista. A torcida e os jogadores do time local pressionavam para que ele inventasse um pênalti (“Dá um pênalti para não morrer, depois o senhor muda tudo na súmula”, teria dito um dos jogadores, segundo Dulcídio), mas ele recusou-se e depois, no vestiário, teve de usar a arma que carregava na mochila para assustar “os mais exaltados”.[7] “O policiamento era muito pequeno: três soldados da PM e quatro vigilantes noturnos”, lembrou, em 1974. “Corri para o vestiário e fechei a porta. Não adiantou. Estavam quebrando os vidros. Peguei meu 38, abri a porta, dei três tiros e gritei: ‘Venham!’ Só assim consegui sair.”[1] Ele considerava essa partida sua “primeira prova de fogo”.[1]

Assim como naquela partida, durante boa parte de sua carreira ia aos estádios armado, embora não entrasse em campo com as pistolas.[1][9] Havia quem dissesse tê-lo visto apitando o segundo tempo de um jogo tumultuado em Americana, em 1973, com um revólver na cintura, o que ele também negava.[11] Ele se empenhou para manter essa fama, que se espalhou principalmente pelo Norte e Nordeste, como quando empunhou uma pistola para abrir caminho entre dirigentes do Bahia depois de um jogo contra o Flamengo.[7]

Já era um árbitro respeitado em 1970, quando o então diretor do Departamento de Árbitros da Federação Paulista de Futebol, Rogélio Rodrigues, revelou: “Quando tenho um jogo duro, escalo o Dulcídio. E durmo tranquilo.”[1] Ele recebia também elogios de jogadores, como Pedro Rocha (“É um dos melhores juízes que já conheci.”) e Ademir da Guia (“Um juiz excelente.”).[1]

Em 1973, um caso curioso: um repórter da revista Placar flagrou um bandeirinha aplicando laquê nos longos cabelos de Dulcídio. “Tem que usar”, defendeu-se o juiz. “Senão os cabelos atrapalham a visão.”[12] No mesmo ano, emocionou-se e foi às lágrimas depois de apitar um jogo entre Corinthians e Portuguesa, quando foi elogiado pelos dois lados.[11] “No intervalo o próprio Wladimir veio me cumprimentar, dizendo que o Cabinho não estava mesmo impedido e que eles tinham reclamado apenas para forçar uma situação”, comemorou, depois do jogo.[11]

No ano seguinte, foi chamado à Federação Paulista de Futebol para ser comunicado que seu nome tinha sido aprovado para os quadros da Fifa, mas, no dia seguinte, deu uma entrevista criticando o cartão amarelo e, coincidência ou não, seu nome foi retirado da lista pouco depois.[7] Em 1983, aceitou um cheque de trezentos mil cruzeiros para usar como prova de suborno, mas não só sua denúncia não deu em nada como ele quase foi processado por corrupção.[7]

Apitou as decisões dos Campeonatos Brasileiros de 1975 e 1988, além das decisões dos Campeonatos Paulistas de 1974, 1975, 1977, 1981, 1983, 1986 e 1987,do Campeonato Mineiro de 1985 e do Campeonato Baiano de 1988, entre outras decisões de estaduais. Foi ainda auxiliar no jogo que decidiu o Campeonato Paulista de 1971, quando correu para o meio-campo para indicar que o gol foi legal, decisão que o árbitro da partida, Armando Marques, reverteu.[13] Na decisão do Campeonato Paulista de 1985, foi vetado pela Portuguesa.[7] “[O presidente Osvaldo Teixeira Duarte] não quis árbitros ‘velhos’”, ironizou depois. “Agora eu gostaria de saber como está explicando no Canindé o pênalti marcado para o São Paulo, num lance em que o Sídnei pisou na bola.”[7]

Na decisão do Paulistão de 1987, quando o São Paulo foi campeão em cima do Corinthians, apitou apesar de ter sofrido um grave acidente de carro dezoito dias antes, na Rodovia Castelo Branco, quando faleceu sua segunda esposa, Berenice Bialski. Ele voltava de Tupã, onde tinha apitado a final da Terceira Divisão Paulista, entre Tupã e Palmital, com a esposa e os bandeirinhas, e bateu na traseira de um caminhão.[14] Ele foi aplaudido pela torcida antes de a partida começar. Ao final, depois de levantar a bola e chorar,[15] desmaiou de dor ao ser abraçado por um amigo justamente na costela fissurada no acidente. “Eu tinha duas opções: encarar a realidade ou me entregar”, disse, após o jogo.[16] Ele dedicou sua arbitragem nessa final, além da esposa  falecida, aos preparadores físicos do Corinthians, que em apenas dez dias ajudaram-no a se recuperar do acidente.[6] Não foi, entretanto, sua primeira partida depois do acidente: uma semana antes, apitou uma partida da Divisão Intermediária, entre Esportiva de Guaratinguetá e Ferroviário Ituano. “De que adiantaria ficar me lamentando?”, perguntou. “Mesmo sofrendo, prefiro voltar à rotina da vida.”[17]

O casamento com Berenice tinha feito com que ele se desligasse da polícia, em 1985, e passasse a trabalhar com crianças. “Cansei de correr atrás de trombadinhas e prostitutas no centro da cidade”, contou, na época. “Estava ficando algo inglório para quem é avô duas vezes e vai completar 48 anos em janeiro [de 1986].”[7] Depois da morte da esposa, envolveu-se em mais um episódio violento antes de se aposentar: durante partida entre Bahia e Internacional na Fonte Nova, pelo Campeonato Brasileiro de 1987, um torcedor invadiu o campo e deu um tapa na nuca do árbitro, que em seguida aplicou uma rasteira no invasor e chutou-lhe várias vezes, tendo de ser contido por jogadores do Bahia. “Eu não vou sossegar enquanto não matar um torcedor”, disse, depois do jogo.[18]

A partida mais polêmica de sua carreira foi a final do Campeonato Paulista de 1977, quando foi acusado de suborno por expulsar o atacante Ruy Rey, da Ponte Preta, aos treze minutos do primeiro tempo, supostamente para favorecer o Corinthians.[3] Rui Rei reclamara que o árbitro só estaria marcando faltas contra o time campineiro, ao que Dulcídio respondeu: “Não agita que eu te coloco para fora.”[19] O jogador seguiu reclamando e o árbitro, tão nervoso que deixou um dos cartões cair no chão, mostrou-lhe primeiro o cartão amarelo e depois o vermelho.

“Ele me mandou tomar… Se eu não o botasse para fora, ele passaria a mandar no jogo”, contou, oito anos mais tarde. “E, lá dentro, só eu mando.”[7] Também foi suspenso por 120 dias por agredir o zagueiro ponte-pretano Polozzi, que depois confirmaria que não foi Dulcídio que o agrediu.[9] Oito anos depois, disse à revista Placar que foi comprado sem saber por dois milhões de cruzeiros para aquela partida: três pessoas supostamente da Federação Paulista teriam pedido dinheiro ao Corinthians para comprá-lo.[7] “Sei quem são e só não os denuncio porque não tenho provas concretas”, disse. “Juro que o cara-de-pau que fosse oferecer suborno naquele jogo iria morrer.”[7]

Fim da carreira e morte

Encerrou a carreira após o Campeonato Paulista de 1990. No total, apitou 240 partidas de Campeonato Brasileiro entre 1971 e 1989, sendo o sétimo árbitro com mais jogos apitados no torneio.[20] Seu grande sonho era fazer parte do quadro de árbitros da Fifa, mas morreu sem realizá-lo, apesar de ter sido cogitado para assumir uma das vagas mais uma vez em 1986.[5]Dulcídio morreu em 14 de maio de 1998, de um tipo raro de câncer, o lipossarcoma de retroperitônio, que se alastrou pelo corpo.[15]


Vamos em frente até qualquer hora!


Referências

  1. ↑ a b c d e f g h i j k l CarlosMaranhão. (15 de novembro de 1974). “O melhor juiz do Brasil” (em português). Placar (243): 33–35. São Paulo: Abril. Visitado em 17/3/2015.
  2. ↑ (12de maio de 1989) “O juizão faz arte” (emportuguês). Placar (986): 30. São Paulo: Abril. Visitado em 17/3/2015.
  3. ↑ a b Enciclopédiado Futebol Brasileiro Lance!, Areté Editorial, 2001, pág. 489
  4. ↑ “‘Coragemé competência’”, Ari Borges, Placar número 864, 15 de dezembro de 1986, Editora Abril, pág. 12
  5. ↑ a b c “‘Coragemé competência’”, Ari Borges, Placar número 864, 15 dedezembro de 1986, Editora Abril, pág. 9
  6. ↑ a b “Dulcídio,poucos erros”, Luís Antônio Prósperi, Jornal da Tarde, 31 deagosto de 1987, Edição de Esportes, pág. 7
  7. ↑ a b c d e f g h i j k l m “Ahora do apito final”, Roberto Salim, Placar número 814,27 de dezembro de 1985, Editora Abril, págs. 38-41
  8. ↑ “‘Coragemé competência’”, Ari Borges, Placar número 864, 15 dedezembro de 1986, Editora Abril, págs. 9-10
  9. ↑ a b c “‘Coragemé competência’”, Ari Borges, Placar número 864, 15 dedezembro de 1986, Editora Abril, pág. 10
  10. ↑ José Jorge Farah Neto e Rodolfo Kussarev Jr., Almanaque do Futebol Paulista 2000, Panini, 2000, págs. 338 e 360
  11. ↑ a b c “Agrande noite de um juiz de futebol”, Jornal da Tarde, 16 deagosto de 1973, pág. 28
  12. ↑ Placar número1.101, março de 1995, Editora Abril, pág. 15
  13. ↑ HumbertoPeron (17 de novembro de 2009). «Árbitros: discussõeseternas». Folha de S. Paulo. Consultado em 17 de novembro de 2009.
  14. ↑ “Dramade Dulcídio”, Placar número 89, 24 de agosto de 1987,Editora Abril, pág. 8
  15. ↑ a b “Oapito perde o Alemão”, Rubens Leme da Costa, Lance!, 15 de maio de 1998, pág. 23
  16. ↑ “Ovelho Dulcídio de sempre”, Placar número 901, 7 desetembro de 1987, Editora Abril, pág. 21
  17. ↑ “Voltainesperada”, Placar número 900, 31 de agosto de 1987,Editora Abril, pág. 10
  18. ↑ “‘Aindamato um’”, Washington de Souza Filho, Placar número 907,19 de outubro de 1987, Editora Abril, pág. 35
  19. ↑ “Quinta-feirada paixão”, Celso Unzelte, Placar número 1.311-A, “30 anos da libertação”, outubro de 2007, Editora Abril, pág. 9
  20. ↑ RobertoAssaf, História Completa do Brasileirão, Areté Editorial, 2008, pág. 270
  1. ↑ Foto do Arquivo Pessoal de Almir Alves de Mello.

 

Mestre Flávio Iazzetti

Jornalista Flávio Iazzetti, criador da Escola de Árbitros da Federação Paulista de Futebol e um dos fundadores da Aceesp (Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo).

Por Marcelo Rozenberg, Terceiro Tempo – Que fim levou?

Neste primeiro dia do ano de 2017 resolvi capturar do mais completo acervo “Que fim levou”, do jornalista Milton Neves, um resumo da biografia do jornalista Flávio Iazzetti, criador da Escola de Árbitros da Federação Paulista de Futebol e um dos fundadores da Aceesp (Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo). 

Iazzetti nasceu em São Paulo em 18 de agosto de 1916 e faleceu na mesma cidade em 09 de março de 1990. Pai do nosso querido companheiro Lucas Neto, começou a vida como barbeiro. Foi no salão, por sinal, que conheceu um cliente que o levou para trabalhar como colaborador no Estadão, no qual teve a chance de escrever uma coluna sobre basquete.

Em 1939, Iazzetti fez parte da primeira equipe do recém fundado jornal Esporte, onde ficou até 1959, Transferiu-se depois para A Gazeta Esportiva, seu local de trabalho até os últimos dias de vida. Paralelamente, integrou os quadros da rádio Panamericana na década de 1940 e da TV Record na de 1950. No canal 7 participou de várias transmissões esportivas ao lado de Raul Tabajara e Paulo Planet Buarque.

Nesta época, já atuava como comentarista de arbitragem, uma de suas grandes paixões. A atuação neste campo, no entanto, havia começado anos antes, quando atuou como professor auxiliar de cursos ministrados em São Paulo. Em 1947, por indicação do então presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF) Roberto Gomes Pedrosa, acompanhou um curso de três meses na Inglaterra. Dois anos depois, participou ativamente da criação da Escola de árbitros da FPF, que recebeu seu nome após sua morte, na década de 90.

Flavio escreveu o primeiro livro da Escola de Árbitros no qual detalhou a história e interpretação das regras. Em 1954, recebeu da Federação Paulista um troféu por vencer um concurso sobre literatura esportiva com uma abordagem sobre o futebol como veículo social.

Homem ligado a Paulo Machado de Carvalho, teve participação importante ao redigir o plano executado pela Seleção Brasileira na Copa do Mundo da Suécia em 1958, que retornou da Europa campeã. Também recebeu inúmeras premiações ao longo da vida, com destaque para 12 troféus “Roquete Pinto?, seis troféus “Gandula? e outros seis troféus “O Gladiador?.


Escola de Árbitros “Flávio Iazzetti”

Entre os anos de 2005 e 2007, atuei como secretário-geral da EAFI, cuja direção estava com o Prof. Roberto Perassi e neste período sugerimos e tivemos o logo oficial da Escola aprovado.

Do site da FPF podemos saber um pouco mais….

O processo de criação da Escola de Árbitros iniciado na década de 40, quando os professores Leopoldo Santana e o jornalista Flávio Iazzetti ministravam cursos para árbitros de futebol sem regularidade e de acordo com o número de interessados ou das necessidades do próprio futebol paulista.

Em 1946, ano seguinte ao término da II Guerra Mundial, a FIFA começava a reestruturar a entidade para o reinício das disputas do Campeonato Mundial, interrompido durante o período da guerra. O Brasil, nesse pós – guerra, dava os primeiros sinais de apoio á FIFA para a realização do Mundial de 1950. Vários países procurados para promovê-lo se recusavam a acreditar no evento, especialmente por razões econômicas.

Tudo indicava que o Brasil iria sediar esse Mundial, como de fato aconteceu, inclusive com a construção de Estádio do Maracanã, com capacidade para 200 mil pessoas. O governo Federal e do Distrito Federal (o Rio de Janeiro era a Capital do País) assumiram o compromisso com a FIFA, com apoio de São Paulo, via FPF.

Em 1947, já pensando no ressurgimento do futebol em todo o mundo e no próximo mundial, a FIFA realizou em Londres um curso de Formação de Instrutores de Árbitros. Formalmente enviou convite a CBD (Confederação Brasileira de Desportos),   hoje CBF

( Confederação Brasileira de Futebol), para enviar um brasileiro para esse curso, com duração de um mês em Londres e visitas a França, Itália, Espanha e Portugal. Presidia a Federação Paulista de Futebol o Dr. Roberto Gomes Pedrosa, que dava apoio CBD para que o Mundial de 50 acontecesse no Brasil. O fato de São Paulo ter realizado da década de 40 cursos para árbitros, fez com que a CBD pedisse á FPF a indicação de um nome e o sugerido foi o jornalista Flávio Iazzetti.

Quando retornou ao Brasil, juntamente com o Dr. Paulo Machado de Carvalho e do Dr. Ary SilvaIazzetti iniciou o trabalho para a criação da Escola de Árbitros da FPF.

Em assembléia Geral no ano de 1949 foi oficialmente criada a Escola de Árbitros. Em 1953 foi realizado o primeiro curso regular da escola, com a formatura da turma inaugural em 1954. A partir de então, anualmente realiza-se o curso de Arbitragem na sede da Federação Paulista de Futebol.

Nossas homenagens e reverências aos PROFESSORES de forma geral, e em particular, na arbitragem, ao Prof. Flávio Iazzetti.

Fonte: http://2016.futebolpaulista.com.br/Arbitragem/Escola


Vamos em frente e até qualquer dia!


 

 

Morgado e seu calvário!

Roberto Nunes Morgado foi um dos mais conhecidos e polêmicos árbitros da história do futebol brasileiro. Seus trejeitos em campo confundiam-se com uma incrível capacidade técnica.

Com 1m71 de altura e apenas 59 quilos, ganhou o apelido de pantera cor-de-rosa.

Resumo do post “Que fim levou? – Milton Neves.

Marcelo Rozenberg

Calvário durou de 1981 a 1987…

Faço uma pausa na época de aluno na Escola de Árbitros para relembrar o exposto nas belas páginas do saudoso jornal Gazeta Esportiva, de 04 de julho de 1981, sendo que este mesmo texto foi reproduzido no blog de outro reconhecido jornalista Wanderley Nogueira, em 19 de abril de 2013.

O motivo de reiterar este texto tem relação com nossa trajetória na arbitragem, pois envolve passagens com o árbitro Roberto Nunes Morgado e o jornal GE que tive a honra de levar uma coluna semanal nos primeiros anos da década de 90.

Antes de reproduzir, estava indo para a Escola de Árbitros, quando cruzei com Morgado no corredor do prédio da FPF. Ele me chamou de lado e demonstrou com os dedos indicadores a distância entre ele, o famoso árbitro Morgado e o projeto de árbitro dizendo: “estou aqui (em cima) e você jovem, aqui (bem abaixo) e sempre que nos encontrávamos havia um cumprimento. Qual o motivo de isto ter parado?” Respondi que não havia percebido e nos desculpamos.

Morgadinho, de forma dura, nos repreendeu dizendo que não existia distâncias entre árbitros e o que o objetivo era aconselhar que, em qualquer atividade, ainda mais na arbitragem que todos são contra, devemos cumprimentar a todos indistintamente. Foi uma grande lição!

Vamos relembrar o calvário deste grande árbitro iniciado em 1981, relendo o jornal GE:

“26 DE JUNHO DE 1981. Quase meia-noite, frio, pouco movimento na BR-116, apenas a passagem de alguns caminhões carregados com destino ao Sul do País. Um automóvel da Federação Paulista de Futebol chegou silenciosamente transportando um moço magro, abatido, tenso, na altura do quilômetro 18,5. Ali, uma clínica importante, conhecida, famosa. Local de recuperação física e mental, ideal para repouso, desintoxicação e sonoterapia.

O tratamento é caro e somente pessoas abastadas, criminosos famosos (Doca Street), esforço familiar ou uma entidade assumindo as despesas provocadas pelos pacientes, todos em regime de internação, aqueles que podem usufruir.

Lágrimas escorriam dos olhos de Roberto Nunes Morgado mas ele admitia não ter outra solução. EstavRoberto Nunes Morgadoa apavorado, vivendo uma enorme crise emocional. Vivendo um verdadeiro drama.

Os episódios anteriores a internação foram muitos e todos provocando reações de desespero naquele bom árbitro de futebol e inseguro homem. Problemas pessoais, sentimentais, profissionais. Filho único, família humilde em torno do seu apito. Os médicos garantem que ele poderá voltar a apitar normalmente. Ficará totalmente recuperado – afirmam os especialistas – e viverá tranqüilo.

Há algum tempo atrás, Roberto Nunes Morgado foi assaltado e ferido com certa gravidade. Necessitou ficar internado e sua maior preocupação era saber se poderia voltar a apitar. Os médicos notaram que a recuperação dos ferimentos era rápida, mas a psicológica não corria tão bem. A arbitragem era o seu único caminho, talvez uma grande e necessária fuga e o medo de não poder mais vestir o uniforme negro, rezar muito nos vestiários e ser o todo poderoso das partidas, era intenso.

Formado na turma de 1969, Roberto Nunes Morgado recebeu como prêmio pelas atuações convincentes o privilégio de dirigir jogos muito importantes. Umbandista por convicção, Morgado, chega sempre com uma hora e meia de antecedência aos estádios onde vai trabalhar, pois seu ritual demora quase uma hora, com reza aos seus orixás.

Mas ele começou a mudar depois de ter sido ferido. Tornou-se mais introvertido, com sintomas de displicência, deixou o emprego que tinha numa churrascaria – gerente – alegando que precisava dormir cedo e não queria andar a noite pelas ruas de São Paulo. Passou a viver somente das arbitragens e com pouca atividade. Um grande tempo ocioso, muito tempo para refletir, raciocinar. Percebeu a sua importância para os pais – dependentes dele – e verificou um futuro incerto, repleto de altos e baixos.

A sua queda psicológica foi flagrante, enorme, quase palpável. Insistia em recusar a ajuda de alguns amigos – entre eles, Francisco Ciasca e Marcio Campos Salles – e suas arbitragens começaram a provocar dúvidas e contestações, algo raro na sua carreira. As pessoas criticavam seus trejeitos, atitudes arrogantes, lembrando Armando Marques, mas não atacavam suas boas condições técnicas e físicas. Entretanto, abatido, a preparação física foi esquecida e os reflexos diminuíram.

Os problemas sentimentais ajudaram muito a chegada do desespero e Morgado chegou a confessar que “queria morrer, desacreditava em Deus e seria melhor para todos, ele desaparecer…”.

O médico Osmar de Oliveira, outro amigo de Morgado, o atendeu dezenas de vezes nas mais variadas horas do dia e da noite. Preocupado com a sua saúde, Morgado queria vitaminas, análise cardíaca, pulsação. Queria o amigo médico para certas confissões e desabafos. Tinha medo de perder a condição de aspirante do quadro da FIFA e ao mesmo tempo não conseguia reagir ao abatimento que o envolvia. Foi aconselhado a procurar um psicólogo amigo de Marcio Campos Salles e depois de algumas consultas começou a mostrar sintomas de recuperação. Aquele medo, aquela “mania” de doença, aqueles traços de insegurança pareciam estar desaparecendo.

Mas o rompimento amoroso, a dependência da arbitragem, a família precisando dele, provocaram uma crise emocional fortíssima. Às cinco horas da madrugada do domingo em que jogariam Ponte Preta e São Paulo, em Campinas, o médico Osmar de Oliveira foi acordado. Morgado precisava dele. Estava afobado, nervoso, não conseguia dormir e iria apitar naquela tarde um verdadeiro clássico em Campinas. Estava desesperado e não conseguia controlar-se. O médico o encaminhou para o Hospital Bandeirante e recebeu o tratamento necessário acrescido de um calmante. Em vista deste fato, Osmar de Oliveira proibiu que ele trabalhasse no jogo Ponte Preta e São Paulo. O diretor do departamento de árbitros não foi localizado e o secretário-geral da Federação Paulista de Futebol assumiu o problema e substituiu Morgado por Almir Laguna.

Em jogos anteriores, Santos e Corinthians e Portuguesa de Desportos e Ponte Preta, o rendimento técnico de Morgado não foi dos melhores. O árbitro resolveu ficar enclausurado em sua casa e não recebeu nem os amigos mais íntimos. Demonstrava intenção de abandonar tudo. O próprio secretário-geral da FPF esteve na residência do apitador e constatou a gravidade da situação. Em seguida o presidente do Sindicato dos Árbitros, José Astolfi – quase a força – levou-o para o prédio da FPF.

Por duas horas, Morgado ficou conversando com o presidente Nabi Abi Chedid. Depois, foi levado para a sede da entidade dos árbitros, para ficar preservado aos comentários, que certamente seriam muitos.

O presidente da FPF resolveu levá-lo para Bragança Paulista e ali Roberto Nunes Morgado foi examinado por um médico amigo de Nabi Abi Chedid.

Osmar de Oliveira e o médico da família Chedid resolveram que o caminho seria a internação imediata e a Clínica Maia foi contatada. O quadro era preocupante: subnutrição provocada pela crise nervosa que vinha se arrastando há meses. Necessitava de calmantes, tratamento psicológico e uma super alimentação. Um tratamento orçado em 20 mil cruzeiros diários. A Federação Paulista de Futebol e a Apafup (entidade dos árbitros) concordaram imediatamente com os custos apresentados e exigiram apenas que simplesmente o melhor fosse feito para a mais rápida recuperação de Roberto Nunes Morgado.

Somente o pai e a mãe do árbitro podem visitá-lo e somente e mesmo assim por apenas alguns minutos. A clínica afirma que o estado do apitador é bom e que ele está absolutamente calmo e tranqüilo. Garante que Morgado tem se alimentado bem e que nos próximos dias talvez algumas visitas sejam permitidas.

Roberto Nunes Morgado deverá ficar internado no máximo mais 15 dias. Tanto a Federação Paulista de Futebol como a Associação dos Árbitros estavam escondendo informações a respeito do local onde Morgado está internado, com o objetivo de evitar a retirada de Morgado do quadro de aspirantes da FIFA.

Como os médicos garantem que este tratamento não provocará nenhum problema na personalidade de Roberto Nunes Morgado, ninguém acredita que os órgãos que dirigem a arbitragem tomem medidas precipitadas e injustas. O médico Osmar de Oliveira foi mais claro:

“Isso que aconteceu com o Morgado pode acontecer com qualquer ser humano e a recuperação é certa. São momentos terríveis que uma pessoa enfrenta, mas com um tratamento correto – é o caso atual – voltará a ter um comportamento normal, perfeito, ideal para qualquer função. Morgado não terá nenhum problema para continuar apitando. Aliás, acho que ele subirá de produção. Afinal, aquela tensão que o envolvia certamente será superada”.

“Ele sempre foi um dos mais responsáveis que conheci dentro da arbitragem. Nunca ia dormir tarde quando tinha que apitar no dia seguinte. Controlava sua alimentação, concentrava-se, até. Sempre preocupado com a saúde. Apenas sentia insegurança e certamente agora tudo será superado”.

Foram muitas as pessoas que surgiram para ajudar o moço Roberto Nunes Morgado. Felizmente, por incrível que possa parecer, desinteressadamente. Os homens se uniram e resolveram apoiar o homem Morgado, o árbitro Morgado, supersticioso, crente, enérgico, espalhafatoso, até engraçado. Mas eficiente.

Quando ele sair daquele casarão pintado de azul e branco, com enfermeiros frios e fortes, tomara que deixe todos os seus problemas lá dentro. Morgado não saberia viver sem a arbitragem.

Ele precisa dela não só para viver e sustentar os velhos pais, mas necessita dela para alimentar uma satisfação íntima perfeitamente natural. Como o escritor não pode deixar de escrever, Morgado não pode parar de apitar.

Eliminando os seus “grilos”, Morgado terá que receber o respeito e a compreensão de todos: jogadores, dirigentes, árbitros, críticos e torcedores. Ninguém tem o direito de esquecer que um árbitro é um homem e como tal, erra, chora, ri, trabalha, acerta e fica doente.

O drama de Roberto Nunes Morgado vai terminar. Enquanto isso permanece a esperança de vê-lo, brevemente, rezando aos seus orixás, pedindo uma boa arbitragem e quase sempre sendo atendido.”


Poderia iniciar mencionando (faremos isto mais a frente) um pouco da brilhante trajetória deste grande árbitro de futebol, mas resolvi reeditar a narrativa do jornal para que todos saibam que antes do árbitro existe o homem, com seus problemas em várias dimensões.

Sem dúvida, Morgadinho foi um ídolo de várias gerações  de árbitros.

Sua última partida foi a semifinal do Paulistão de 1987, entre São Paulo e Palmeiras, quando expulsou quatro palmeirense. Neste ano, ainda mais doente, foi reprovado na avaliação teórica da CBF, o que o impediu de atuar.

No ano seguinte, em fevereiro, foi internado no Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, com Aids. Neste momento de dor, apenas o presidente do Sindicato e poucos amigos citados acima o acompanharam até sua morte, em 26 de abril de 1989, com 43 anos de idade.

Chegou a ser Aspirante-FIFA e atuou no futebol de Santa Catarina, dando shows de atuação.

Se hoje sofremos para eliminar o preconceito da sociedade, imaginem na década de 80?


Vamos em frente e até qualquer dia!


Foto do Acervo Gazeta Esportiva Press: O árbitro Dulcídio Wanderley Boschilla (C) e seus auxiliares Roberto Nunes Morgado (E) e Emídio Marques de Mesquita, após a partida entre Corinthians e Ponte Preta, válida pela primeiro jogo das finais do Campeonato Paulista de 1977.

 

 

O primeiro ano – 1981

Sérgio Corrêa da Silva, nascido em Guaratinguetá, interior de São Paulo – SP, num sábado do dia 30 de maio de 1959. Segundo filho de seis, cujos bisavós são oriundos de San Pedro Castañero, um povoado situado no município de Castropodame, comarca de Bierzo, na província de León, Espanha. Os bisavós Roman e Hilária deixaram o país durante o regime autoritário de Francisco Franco. Os pais Dico (1931 – 2003) e Eunice (40), os irmãos: Laura (58), Pércio (60), Lúcia Helena (61) (im memória), Celeste (64) e Marcelo (72).

Na mesma cidade morei e estudei até o ensino médio e, em 1978, antes de ir para universidade ingressei na Força Aérea Brasileira. Depois de 4 semestres me graduei e fui designado para servir a nação, no Parque de Material Aeronáutico de São Paulo, organização militar fabril. Sempre no mesmo setor (Subdivisão de Engenharia) trabalhei até passar para a reserva em 2005, Como fui para o batente aos 14 anos, somei os tempos da iniciativa privada e passei para reserve em 2005.

No primeiro mês do ano de 1980 cheguei a metrópole paulista com a imagem feita pelo velho Dico: “è uma cidade que serve apenas para quem gosta de trabalhar!”

Lá chegando, depois de me instalar numa república com seis companheiros de farda, tomei três providências que traçariam toda minha trajetória. Com apenas 21 anos me apresentei no Parque Aeronáutico, procurei o curso Etapa,, ao lado do metrô São Joaquim, visando o vestibular e, considerando ser próximo da sede da Federação Paulista, avenida Brigadeiro Luis Antonio, 917, apenas para conhecer o Museu “Paulo Machado de Carvalho”, inaugurado em 17 de novembro de 1975.

Quem me recepcionou no acanhado Museu foi o conhecido e respeitado jornalista Mauro Pinheiro [1], um apaixonado pela história do futebol.

Um ano depois, lendo a revista Placar (692, de 26 de agosto de 1983), em sua página 51, o assessor de imprensa da Federação Paulista de Futebol, Fausto Camunha, em uma entrevista a disse que a “Federação tem um carinho especial pelo museu”.

Na edição além de uma critica que não poderia ser rebatida, pois o jornalista faleceu em 25 de janeiro de 1982, o que extrai foi que a maior parte das obras da biblioteca foi doada pelo reconhecido jornalista Mauro Pinheiro

No mesmo prédio tomei conhecimento da existência da Escola de Árbitros que anos depois receberia o nome de “Flávio Iazzetti” [2]. Lá chegando, conheci o diretor, Sr. Dirceu Fernandes, e conversamos sobre futebol e a arbitragem. Encantado me despeço e ele pediu que deixasse registrado um contato para quando as inscrições fossem abertas.

Foi um dia especial em que a chama da paixão pela arbitragem brotou. Neste dia conheci o museu, local em que se perpetua a memória e isto explica a minha luta por tornar visível a figura do árbitro de futebol, como, também, a escola de árbitros, base fundamental para abrir outras possibilidades para desenvolvimento de qualquer pessoa e nação.

Retornei para o Campo de Marte e dediquei-me a atividade principal, certo de que seria informado da abertura das inscrições da escola de árbitros….

O tempo passou e chegou o segundo semestre sem qualquer contato. Aproveitei para uma uma nova visita e lá chegando tomei conhecimento de que a aula inaugural seria realizada. Falei com o diretor. Este lembrou-se, pediu desculpas e enfaticamente disse: se quer iniciar o curso vá neste consultório médico e traga um atestado de aptidão para atividades físicas…. O que fazer? Deixar para o ano seguinte?

Não se perde esta oportunidade.. De pronto corri e fui atendido por outra saudosa figura do futebol, o Dr. Osmar de Oliveira [3], após a consulta emitiu o atestado e retornei a tempo e hora para assistir a primeira aula da Escola de Árbitros, da Federação Paulista de Futebol, cujo presidente era Nabi Abi Chedid.

Cada aula, uma regra e uma personalidade diferente da arbitragem brasileira…..

Claro que não iremos detalhar as aulas, mas apenas as passagens inesquecíveis dos instrutores e dos companheiros de turma que mereçam um registro. Tem cada passagem!!!  


Vamos em frente e até qualquer dia!


[1] Mauro Pinheiro (1925-1982), O “Senador”, comentarista do “Escrete do Rádio”, da Rádio Bandeirantes. Faleceu em 25 de janeiro de 1982, aos 57 anos. O jornalista foi homenageado, com o ginásio do complexo esportivo do Ibirapuera levando seu nome. Mais detalhes: http://www.ultimadivisao.com.br/mauro-pinheiro-o-eterno-senador/

[2] Flávio Iazetti (1916-1990) – Um dos mais importantes jornalistas de todos os tempos. Nasceu no dia 18 de agosto de 1916. Começou sua carreira em 1938, já no ano seguinte criou o jornal O Esporte onde ficou até 1960. Em 1961 chegou à Gazeta Esportiva onde permaneceu até o seu falecimento. Atuou na rádio Panamericana e nas tevês Record e Gazeta. Foi um dos fundadores da ACEESP. Com Paulo Machado de Carvalho e Ary Silva, fundou a Escola de Árbitros da FPF que hoje leva o seu nome, por resolução e homenagem póstuma. Foi auditor e secretário do TJD (Tribunal de Justiça Desportiva) da Federação Paulista de Futebol. Com os jornalistas Ary Silva e Paulo Planet Buarque, mais o técnico Vicente Feola, integrou a comissão que elaborou o “Plano Paulo Machado de Carvalho”, que levou o Brasil ao seu primeiro título mundial em 1958 na Suécia. Faleceu em 9 de março de 1990, aos 74 anos.

[3] Osmar de Oliveira (1943-2014), Na foto em destaque no post foi um dos maiores especialistas em Medicina do Esporte, trabalhou no Corinthians, de 1969 a 1977, cobriu nove Copas, oito olimpíadas e seis jogos Pan-Americanos. Faleceu em 11 de julho de 2014, aos 71 anos.

 

 

Dos gramados aos gabinetes…

Sérgio Corrêa, como tudo começou?

Para responder resolvi escrever nossa trajetória na arbitragem paulista e brasileira desde a Escola de árbitros….

Muitos me perguntam como tudo começou….

E para responder resolvi escrever a trajetória na arbitragem paulista e brasileira desde a escola de árbitros da arbitragem da Federação Paulista de Futebol.

Os que participaram deste período poderão relembrar muito do que aqui deixarei registrado. Os que não acompanharam ou desconhecem os bastidores terão esta oportunidade de maneira oficial, sem distorções, omissões ou exageros. Tão somente a verdade vivida desde o início, em 1980…

Pretendo criar uma narrativa imersiva, contando aos interessados de forma tal como se estivessem juntos. Darei detalhes para que possam imaginar e sentir da forma como senti, usando uma linguagem que mostre ações, resultados, objetivos alcançados ou frustrados.

Procuro sempre detalhar todas as atividades, fases, necessidades etc no sentido de que os resultados sejam aqueles que foram projetados…

Projeto do Livro: Sua Senhoria, o Árbitro (provisório).

Este projeto está dividido em duas partes: A História da Arbitragem no Brasil e a nossa trajetória.

O conhecido jornalista e escritor assisense Marcos Barrero, se dispôs a ajudar nesta missão, com a seguinte estrutura:

A primeira parte irá traçar um panorama da arbitragem no país desde o pioneiro Charles Miller até o momento atual, em ordem cronológica.

A segunda parte demonstra a evolução da nossa carreira na arbitragem, em várias etapas, divididas em cinco capítulos:

No Gramado, Tempos Sindicais, Época da FPF, Na CBF e Case Árbitro de Vídeo.

A ideia central da obra é fundir a história da arbitragem no Brasil com nossa evolução pessoal e profissional, através de um relato linear de sua trajetória, relembrando casos interessantes, fatos, cidades e pessoas que marcaram determinados períodos de sua trajetória na arbitragem.

A elaboração do livro terá como principal linha o nosso depoimento, entrevistas com personalidades que foram presentes em nossa carreira e vida ao longo do tempo.

Haverá a reconstituição de histórias marcantes, mas também de fatos aparentemente banais, mas relevantes. Desse modo, como contraponto aos dados estáticos e estatísticos, pontificarão historinhas saborosas de bastidores lembradas por um e outro colega com os quais convivemos nas várias etapas de sua trajetória.

As histórias serão acompanhadas da descrição de lugares, cidades e pessoas, humanizando ao máximo o relato e, ao mesmo tempo, tornando-o agradável e de fácil leitura.

Primeira Parte – A história da arbitragem no Brasil

Um panorama da arbitragem no Brasil desde Charles Miller até a atualidade.

As etapas, a evolução e as transformações da arbitragem.

As regras e as mudanças.

Os grandes momentos, os nomes mais destacados.

Os pioneiros, os destaques do Bre Rio de Janeiro e São Paulo.

Juízes de outros Estados.

Os juízes estrangeiros.

Segunda Parte – A nossa trajetória

Capítulo 1

No gramado

Árbitro estadual – 1981 A 2001

Árbitro nacional – 1989 A 2001

Capítulo 2

Tempos sindicais

Dirigente sindical no estado – 1990 – 1993 / 1996 – 2008

Dirigente sindical nacional – 1997 – 2003

Capítulo 3

Época da Federação Paulista de Futebol

Comissão Estadual de Arbitragem – 2005

Escola de Árbitros Flávio Iazzetti – 2005 – 2007 – Secretário-Geral

Capítulo 4

Na Confederação Brasileira de Futebol – CBF

Comissão de Arbitragem – CBF – 2005 – 2007 – Secretário-Geral

Comissão de Arbitragem – CBF – – 2007 – 2012 / 2014 – 2016 – Presidente

Chefe do Departamento de Arbitragem – 2012 – 2014 – Primeira passagem

Diretor-Presidente da Escola Nacional de Arbitragem – CBF – 2013 – 2014

Capítulo 5

O case Árbitro de Vídeo – 2015

(toda história)

Chefe do Departamento de Arbitragem – CBF – 2016

Líder do Projeto do Árbitro Assistentes de Vídeo – CBF – Desde 2015.

 Será uma viagem no tempo!!!!


Vida que segue e até qualquer dia!