O VAR acabará com a magia do futebol?

Lendo o texto do jornalista Trevisan, a quem respeito, mas não concordo com a afirmativa….
 

* Márcio Trevisan – Não faz muito tempo – cerca de um mês, mais ou menos -, por estes acasos da vida topei no meio da rua com um árbitro pertencente aos quadros da FPF e da CBF, o qual conheci nos tempos em que trabalhei como assessor de Imprensa de todos os apitadores paulistas e cujo nome, por motivos mais do que óbvios, não vou divulgar.

Após os cumprimentos de praxe, é claro que o assunto entre nós foi o tal do VAR, ferrenhamente defendido pelo apitador. Já a minha opinião sobre o dito cujo todos vocês já sabem – e há um bom tempo. Afinal, ele já foi tema central de duas colunas “Papo de Esporte”: uma escrita em setembro de 2017 (http://cliqueabc.com.br/vem-ai-mais-um-campeao-de-audiencia/) e outra publicada em abril de 2019 (http://cliqueabc.com.br/eu-cantei-a-bola-nao-var-adiantar-nada/).

O diálogo que mantivemos sobre o VAR (Video Assistant Referee) foi bastante elucidativo pra mim, e por isso decidi transcrever abaixo algumas das perguntas que fiz ao meu amigo dos tempos do SAFESP e as respostas que ele me deu.

P – O VAR surgiu porque os árbitros atuais são ruins? Pergunto porque há muitos anos não aparece no futebol brasileiro um nome como Dulcídio Wanderley Boschillia, Roberto Nunes Morgado, Romualdo Arppi Filho, Arnaldo Cézar Coelho…

R – Não acho que os árbitros do presente são piores do que os do passado. O que acontece é que o futebol atual é infinitamente mais rápido do que o de antigamente e o número de câmeras que transmitem imagens de um jogo de futebol é 10 vezes maior do que havia há algumas décadas. Com todo o respeito a estes nomes que você citou, e a outros grandes árbitros que fizeram história, na época deles era muito mais fácil apitar, até porque muitos jogos sequer transmissão tinham.

P – Por que existe tanta demora na hora da avaliação de um lance pelo VAR?

R – Porque preferimos demorar e acertar do que nos apressarmos e errarmos. Se tivermos mais monitores e mais câmeras – além, claro, de mais profissionais e treinamento – este tempo irá diminuir. Mas, mesmo que isso não aconteça, a experiência adquirida rodada a rodada, partida a partida, também nos ajudará a diminuir este tempo, que realmente está muito longo.

P – Mas se é um mecanismo criado para impedir erros do árbitro de campo, por que o VAR erra?

R – Porque ele é manuseado por seres humanos, e seres humanos são falíveis. Mas isso tem um jeito de acabar: como eu disse, basta nos darem mais câmeras, mais monitores e mais profissionais devidamente treinados. Se isso acontecer, dificilmente erros acontecerão.

P – Muitas pessoas, e dentre elas este jornalista, dizem que o VAR acaba com a magia do futebol, pois o jogador, o torcedor, comemora um gol e, depois, a jogada pode ser anulada. Ou, então, o árbitro de campo marca um pênalti, por exemplo, e depois volta atrás em sua decisão. Ou seja: é o anticlímax total.

R – Isso não tem como evitar. Todos os lances capitais são avaliados. Se o atleta marca um gol ele e a sua torcida logo começam a comemorar, mas simultaneamente os árbitros de vídeo estão analisando tudo para ver se não houve alguma irregularidade. Se algo de ilegal aconteceu, infelizmente a festa terá sido em vão.

P – Eu já percebi que alguns árbitros de campo estão deixando as principais decisões para o VAR. Como evitar que isso aconteça?

R – A gente também já percebeu isso. O cara acha que dando uma de esperto vai se sair bem, mas não vai, não. Aliás, alguns já foram chamados para uma conversa bem franca com o Leonardo Gaciba, que é o presidente da Comissão de Arbitragem da CBF. Pode anotar: árbitro que quiser fugir da responsabilidade vai ficar fora das escalas. Simples assim.

P – Você acredita que o VAR veio pra ficar? Ou diante das críticas cada vez mais fortes por parte da Imprensa, de jogadores, treinadores e da torcida poderá ser deixado de lado?

R – O VAR não tem volta. Pode anotar: muito em breve ele estará presente em todas as principais ligas do mundo – até na Copa do Mundo já foi utilizado! É claro que serão necessários aperfeiçoamentos, o tempo das decisões terá de diminuir drasticamente, o índice de acerto terá de ser muito próximo a 100%, etc. Mas a partir de agora será impossível se pensar em futebol sem esta nova tecnologia.

* Em Tempo: apesar de todas estas respostas, a opinião deste colunista sobre o VAR continua a mesma.

 

Caro Trevisan,

O VAR veio para proporcionar mais uma oportunidade ao árbitro de poder revisar uma decisão que, por diversas questões (velocidade, impossibilidade humana, muita tecnologia) um ser humano não consegue a perfeição.

Autor: Sérgio Corrêa

Árbitro na Federação Paulista de Futebol (1981-2001) e da Confederação Brasileira de Futebol (1989 a 2001); Ocupou cargos administrativos nos sindicatos entre 1990-93 e 1996-03, Eleito e reeleito presidente para dois mandatos: o primeiro compreendido entre 03/02/2003 a 08/04/207 e o segundo, de 09/04/2007 a 08/04/2011. Deixou a função para assumir a presidência da CA-CBF. Pela Associação Nacional dos Árbitros de Futebol ocupou os cargos de secretário-geral, entre 25/10/1997 e 13/05/2003. Já, na Comissão de Arbitragem, foi secretário-geral entre 25/10/2005 e 06/08/2007. Nomeado presidente da CA-CBF em duas oportunidades, a primeira entre 07/08/2007 a 22/08/2012, a segunda, de 13/05/2014 a 28/09/2016. Também foi diretor-presidente da Escola Nacional de Arbitragem de Futebol, entre 07/01/2013 a 12/05/2014. Atualmente, continua chefiando o DA (desde 22/08/12) e lidera o projeto de árbitro assistente de vídeo, nomeado junto a FIFA desde 15/09/2015.

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