Entrevista com Edson Rezende – 2012

Delegado da Polícia Federal, foi Aspirante-FIFA. Assumiu a presidência da arbitragem em 30 de setembro de 2005, após o “Escândalo dos Apostadores”. Montou uma força-tarefa com Manoel Serapião, Cunha Martins, Paulo Alves e Sérgio Corrêa. Foi presidente interino várias vezes e, desde 2012, é corregedor do apito.

Notícia, de 25 de maio de 2012

 

Delegado aposentado da Polícia Federal, Edson Rezende de Oliveira é o responsável pelo posto de Corregedor da arbitragem da CBF. Ele foi Presidente da Comissão de Árbitros de Brasília e também chefe do departamento de árbitros da CBF. Em 2007 pediu desligamento da Conaf por problemas de saúde e agora voltou a CBF, para comandar a recém criada Corregedoria da Arbitragem. Nesta entrevista exclusiva para o site da ANAF, Edson Rezende de Oliveira fala como funcionará a nova estrutura.

Qual o papel do Corregedor de Arbitragem da CBF?

Terá um papel de, principalmente, proteger e fortalecer o profissional da arbitragem sério, honesto e competente. Vai proteger a partir do momento que atuar para colaborar na eliminação da arbitragem brasileira dos que nela ingressam com interesses que não sejam de zelar por uma atividade imensamente importante no futebol mas, ainda, grandemente incompreendida e explorada. A Corregedoria de Arbitragem deve atuar procurando identificar possíveis desvios de condutas de pessoas que já estão no meio da arbitragem ou, pretendem nela ingressar, visando interesses próprios ou de grupos que objetivam ganhar vantagens das mais variadas formas usando a arbitragem para atingir suas metas. A Corregedoria pretende atuar em parceria com as entidades e pessoas sérias ligadas ao nosso futebol e que desejam ver o profissional ligado a este esporte, seja qual for sua atuação, sempre como exemplo de seriedade e honestidade.

Qual a estrutura do cargo? A quem está subordinado? Trabalhará com uma equipe?

A Corregedoria de Arbitragem da CBF embora estruturalmente esteja ligada à CA/CBF, para efeitos de organograma, está subordinada diretamente ao Presidente da CBF e deverá trabalhar em ambiente definido na sede da entidade com a estrutura necessária para desempenhar as atividades que a ela estão afetas, tanto de material quanto de pessoal que necessitar, dependendo do volume de atividades.

A atuação será independente?

Com certeza, total independência. O que mais o Presidente da CBF, Dr. Jose Maria Marin, fez questão de enfatizar foi que será um trabalho com total independência, para acompanhar e investigar todas as situações possíveis de interferir negativamente, denegrir , comprometer ou colocar em risco todo o trabalho que a CBF, através da Comissão de Árbitros, tem desenvolvido na valorização e aperfeiçoamento constantes da arbitragem brasileira. Será sempre, é preciso deixar claro, um trabalho de buscas, investigações, acompanhamentos para oferecer subsídios aos órgãos que têm competência legal para punir os que não cumprirem as normas que disciplinam a conduta e postura destes profissionais da arbitragem.

Como será a relação com a CA/CBF?

Temos certeza que será a melhor possível, pois os interesses são comuns, a de valorizar o profissional sério da nossa arbitragem. A relação deve ser a melhor possível, também, com as Federações Estaduais de Futebol que não têm outro objetivo senão a busca de bons e competente
s profissionais da arbitragem nos seus estados e, consequentemente, a nível nacional. Enfim, a relação será sempre boa com todos os segmentos que desejam ver seriedade na nossa arbitragem e queiram colaborar para uma atuação sempre séria e constante em benefício dos bons árbitros, denunciando quaisquer desvios de condutas que possam comprometer a classe destes profissionais.

O trabalho será articulado com o Ouvidor da Arbitragem?

Sem dúvida, primeiro porque ambas as funções estarão trabalhando por uma arbitragem sempre melhor e séria. Depois porque, às vezes, as primeiras denúncias, de possíveis desvios ou dúvidas de comportamentos de árbitros, poderão ser levadas ao Ouvidor de Arbitragem da CBF, com o qual os clubes, principalmente, terão os primeiros contatos com reclamações de trabalhos da arbitragem em seus jogos ou sugestões para acompanhar as atividades de determinados árbitros face seus desempenhos em campo, cujo trabalho pode se estender além dos gramados.

Será possível avaliar com mais profundidade os erros, quando eles acontecerem?

Hoje há um acompanhamento muito detalhado e próximo de todos os árbitros que atuam em todos os jogos de competições coordenadas pela CBF. Tem havido um investimento muito grande e um trabalho incansável da CBF através de sua Comissão de Árbitros em dotar a arbitragem, cada vez mais, de condições ideais para desempenhar suas atividades dentro de campo. São treinamentos constantes, cursos de aperfeiçoamento tanto na Granja do Comari quanto regionalmente nas Federações Estaduais, testes físicos e teóricos regularmente, aquisição de equipamentos para apoio ao trabalho dos árbitros, cursos para instrutores brasileiros ministrados pela FIFA etc. Além destas atividades colocadas visando um aprimoramento cada vez melhor da arbitragem, nossos árbitros são acompanhados em todos os jogos que atuam, em todos os estádios onde ocorram jogos de todas as competições coordenadas pela CBF: Copa do Brasil, Séries A,B,C e D, competições femininas etc. Estes acompanhamentos são feitos por Assessores de Arbitragem ou Delegados Especiais que são designados pela Comissão de Árbitros da CBF para estar presentes em todos estes jogos, acompanhar a atuação de toda a arbitragem e emitir relatórios sobre o desenvolvimento do trabalho dos mesmos, visando treinamentos específicos e particularizados para alguns que assim necessitarem, objetivando uma melhora constante do nível de suas atuações, e/ou o afastamento de outros que não correspondam ao trabalho e investimento que tem sido feitos em seu benefício.

O Presidente da CBF, Jose Maria Marin, afirmou que “pesou na escolha currículo e passado” do senhor e de Aristeu Tavares. Qual sua trajetória de vida, especialmente na arbitragem?

Foi com orgulho que ouvimos estas palavras do Presidente da CBF por ocasião de nossa posse, minha e do Aristeu Tavares que assumiu a função de Ouvidor de Arbitragem da CBF. Iniciei e encerrei minhas atividades de arbitragem de futebol pela Federação Brasiliense de Futebol, desde o curso de formação em 1973 até “pendurar” o apito em 1992. Tive o privilégio de fazer parte do Quadro de Árbitros da CBF e Aspirantes à FIFA e ter feito um incontável número de amigos por todo o Brasil, viajando pela arbitragem. Tive o privilégio de Presidir a Comissão de Árbitros de Brasilia por dez anos, fazer parte da Comissão de Árbitros da CBF por oito anos e presidir a mesma por mais dois, fazer parte da relação de Assessores de Arbitragem e Delegado Especial da mesma entidade. Na vida funcional tive o privilégio de pertencer a um dos órgãos de maior respeito e admiração pelo brasileiro a “Policia Federal” da qual sou aposentado na função de Delegado. São duas atividades que estão no sangue e só as desempenham quem gosta e possui vocação para tal, arbitragem e polícia, com grandes responsabilidades mas pouco reconhecidas pela sociedade. Mas sempre fui muito feliz em exercer ambas.

Fale sobre a arbitragem do seu tempo e a atual.

São épocas bastante distintas. Hoje o árbitro é mais assistido, mais acompanhado, melhor assessorado, com material didático, equipamentos, instrutores mais modernos e melhor preparados para levar ao árbitro atual orientações adequadas e necessárias. A própria mídia moderna coloca ao árbitro informações em tempo real, possibilitando pesquisas, estudos, esclarecimentos de dúvidas que antes não dispúnhamos nos níveis atuais. É claro que o árbitro de hoje é também mais cobrado, seus erros são mais visíveis com uma quantidade enorme de câmeras que acompanham os jogos nos campos de futebol, embora tenhamos que dizer que também seus acertos são mostrados, embora os erros são bem mais dimensionados. No passado até os uniformes cada árbitro confeccionava o seu, chuteiras, bandeiras etc. hoje é tudo padronizado através de patrocínios, e é muito bonito ver um grupo de árbitros entrar em campo impecavelmente uniformizados, tanto na vestimenta quanto no biotipo.

As funções de Árbitro Assistente Adicional ajudarão a arbitragem?

Sem dúvida, são mais quatro olhos acompanhando o jogo e somando para que os equívocos sejam reduzidos. Estarão em um local que, às vezes, ficam difíceis de serem anotadas irregularidades pela arbitragem, e em zonas cruciais para o jogo, podendo decidir resultados de partidas os lances alí ocorridos. Ainda é uma experiência colocada pela FIFA, mas no meu ponto de vista, tende ajudar a arbitragem, e embora parece pouco atuarem, mas às vezes quando atuam podem impedir erros gravíssimos da arbitragem e evitar prejuízos irreparáveis para as equipes.

O que diz o instrutor físico sobre as atuais avaliações físicas. Elas estão adequadas às nossas necessidades? O índice de reprovação ainda é elevado? E as avaliações teóricas são importantes?

O futebol hoje está muitíssimo mais veloz que no passado. Estando mais veloz exige muito mais da arbitragem para acompanhar o mais próximo possível as jogadas e reduzir ao máximo o índice de erros. Portanto o condicionamento dos árbitros também teria que evoluir. A FIFA elaborou estudos, fez experiências e chegou a conclusão que os testes hoje aplicados aos árbitros estão mais próximos do ideal para que eles possam se condicionar, serem aprovados nos testes e desenvolverem um bom trabalho dentro de campo de jogo. Hoje o árbitro para ser aprovado nos testes físicos tem que estar realmente bem preparado, e estar zelando constantemente por este condicionamento físico exigido tanto para os estes quanto para as suas atuações. Os índices de reprovações hoje são bem pequenos, só os que não se cuidam e não se preparam são reprovados. Já as avalições teóricas são indispensáveis para o bom desempenho de uma boa arbitragem, às vezes quando menos se espera ocorre algo raríssimo em campo e o árbitro deve conhecer as regras e estar preparado para interpreta-las no momento que isso ocorrer e aplicá-las corretamente. Por estas razões da CA/CBF tem aplicado testes físicos e teóricos periódicos aos árbitros, visando alertar para que os mesmos estejam sempre preparados e aptos para o bom desempenho de suas atividades e não sejam pegos de surpresa.

O que acha do sorteio para designar árbitros para os jogos? O sorteio de colunas atende ao sorteio?

É um ponto de vista particular meu, julgo que nada veio acrescentar esta metodologia para designar árbitros para jogos. Em todos os países que experimentaram desistiram de tais procedimentos. Alguns defendem o sorteio dizendo que é uma maneira de dar mais transparência às designações de árbitros para os jogos. É como se afirmassem que não acreditam nas pessoas que dirigem a arbitragem. É como quisessem afirmar que o sorteio seria a solução para possíveis problemas da nossa arbitragem, não esquecendo que o maior escândalo da arbitragem brasileira ocorreu na vigência do sorteio. Além de dificultar as designações de árbitros para jogos de campeonatos longos e disputadíssimos, com envolvimentos de vários estados brasileiros o que implica em verdadeiros quebra-cabeças para estas designações principalmente quando atingimos certas fases destas competições quando quase todos os jogos são decisivos para baixo ou para a ponta da tabela e parece haver necessidade de extremas neutralidades de árbitros em face de seus estados de origem, regiões onde moram, jogos que já apitaram na mesma competição etc. O Estatuto de Defesa do Torcedor, que instituiu o sorteio dos árbitros, não especificou a maneira como o mesmo deve ser feito, portanto, s.m.j, não havendo uma designação direta, seja por colunas, de dois, três, quatro etc. é sorteio e deve ser como tal reconhecido, a não ser que haja uma regulamentação da lei e especifique como devem ser realizados os sorteios.

O que acha da tecnologia para auxiliar a arbitragem?

Sou plenamente favorável. É humanamente impossível os responsáveis pela arbitragem de um jogo não cometerem equívocos que poderiam ser sanados pelo auxilio da tecnologia. Hoje mesmo vemos erros graves, serem mostrados pela TV ao vivo, que poderiam ser evitados caso a arbitragem pudesse se socorrer da tecnologia. Não seria, conforme alguns pensam, estar a todo momento parando o jogo para ver o que árbitro marcou, se estava certo ou errado etc. Considero que a tecnologia seria utilizada para dirimir dúvidas de lances objetivos, sem possibilidade de interpretações, a exemplo se a bola entrou ou não no gol, se a infração ocorreu dentro ou fora da área penal, se a bola saiu ou não de campo antes de ser lançada, um toque de mão escandaloso que não deixa margem a dúvidas, a exemplo do ocorrido no jogo França x Irlanda que eliminou a Irlanda da Copa do Mundo na África etc. Em vários esportes se lança mão da tecnologia para evitar erros de arbitragem, a exemplo do tênis, que tem uma quadra bem menor, vários juízes, não contatos físicos etc. por qual razão não permitir no futebol, com um campo enorme, vários jogadores, permanentes contatos físicos etc? Alguns querem defender a não utilização da tecnologia no futebol alegando que iria acabar com as paixões, discussões acaloradas nos botequins, nos programas de rádios, TVs, rodas de amigos etc. É um engano, as discussões vão continuar, pois vão discutir se o empurrão foi pênalti ou não, se o lance foi “bola na mão” ou “mão na bola”, se a entrada do adversário foi faltosa ou não etc. etc.

As discussões vão continuar pois os lances de interpretações (subjetivos) vão continuar causando controvérsias, uns concordando com as marcações da arbitragem outros não, o que vai impedir é que erros gravíssimos, não interpretativos, decidam o resultado de um jogo e até de uma competição, e por vezes, o futuro de um árbitro.

O Corregedor de Arbitragem da CBF teria alguma mensagem?

Talvez não uma mensagem, mas um apelo para que todos façam parte desta Corregedoria e colaborem para não permitir que “bandidos” possam fazer parte da arbitragem brasileira, denunciando comportamentos comprometedores, de toda natureza, dentro e fora de campo, que possam colocar em risco a arbitragem séria que todos pretendem ter. Não é um trabalho de invasão de privacidades, bisbilhotice, policialescos, mas de zelo e cuidado necessários para apoiar as pessoas de bem que lutam por uma futebol cada vez melhor e uma arbitragem sempre séria e colocada acima de quaisquer suspeitas. Este trabalho não deve ser feito somente sobre árbitros, mas sobre seus dirigentes também, que são grandes responsáveis e devem ser exemplos, em todo sentido, a serem seguidos por seus comandados e possam exigir correção nas condutas dos árbitros, pois as suas são inatacáveis. Cada um de nós podemos fazer algo, por pouco que imaginemos, se somadas, as contribuições de todos representam o que precisamos e desejamos para um grupo capaz e sério.

Fonte: ANAF

 

Autor: Sérgio Corrêa

Árbitro na Federação Paulista de Futebol (1981-2001) e da Confederação Brasileira de Futebol (1989 a 2001); Ocupou cargos administrativos nos sindicatos entre 1990-93 e 1996-03, Eleito e reeleito presidente para dois mandatos: o primeiro compreendido entre 03/02/2003 a 08/04/207 e o segundo, de 09/04/2007 a 08/04/2011. Deixou a função para assumir a presidência da CA-CBF. Pela Associação Nacional dos Árbitros de Futebol ocupou os cargos de secretário-geral, entre 25/10/1997 e 13/05/2003. Já, na Comissão de Arbitragem, foi secretário-geral entre 25/10/2005 e 06/08/2007. Nomeado presidente da CA-CBF em duas oportunidades, a primeira entre 07/08/2007 a 22/08/2012, a segunda, de 13/05/2014 a 28/09/2016. Também foi diretor-presidente da Escola Nacional de Arbitragem de Futebol, entre 07/01/2013 a 12/05/2014. Atualmente, continua chefiando o DA (desde 22/08/12) e lidera o projeto de árbitro assistente de vídeo, nomeado junto a FIFA desde 15/09/2015.

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