Entrevista com Chefe do DA – 2013

23 de janeiro de 2013, Notícia na Mira, do Paulo Lira.


Com Sérgio Corrêa da Silva, Chefe do DA-CBF terminamos a nossa série de entrevistas especiais com as personalidades  mais importantes da arbitragem nacional.

Espero que tenham gostado de todas elas.

Agora fiquem com esta que sem dúvida irá enriquecer mais ainda a sua opinião sobre o que acontece no mundo dos “homens de preto” do nosso pais.

Confira:

1.De onde ou de quem surgiu a ideia de se criar uma Corregedoria e uma Ouvidoria na CBF? Quando foram criadas?

Do Presidente José Maria Marin que, ao assumir, no dia 16 de março do corrente ano reuniu os integrantes da CA-CBF e durante 2 horas trocamos informações sobre o setor.

O presidente relembrou sua trajetória nos tempos em que jogou futebol; dos 6 anos em que presidiu a Federação Paulista de Futebol, dos dirigentes de arbitragem e dos árbitros da época.

O Dr. Marin de forma clara, objetiva e pragmática disse que não mediria esforços para melhorar a qualidade da arbitragem. Ele enfatizou que aceita o erro humano e que não perdoará o dolo.

Naquela oportunidade ouviu atentamente as ponderações dos antigos companheiros, Luiz Cunha Martins, Manoel Serapião Filho e Paulo Jorge Alves.

Ao final da reunião informou que pretendia adotar medidas para reduzir a carga de trabalho impostas a Comissão de Arbitragem, no sentido de que esta deveria preocupar-se apenas com as designações para os sorteios.

Dentre as primeiras medidas seria a criação da Ouvidoria e Corregedoria da Arbitragem; da aquisição de 30 (trinta) rádios comunicadores e de solicitar autorização especial da FIFA para adotar os árbitros assistentes adicionais, haja vista que tal experimento somente poderia ser colocado em prática sob a supervisão da entidade máxima e do coordenador nacional indicado pelo Dr. Ricardo Teixeira, na época, a escolha recaiu sobre Manoel Serapião Filho.

Em relação aos adicionais, o pedido foi feito pessoalmente em Zurique e quando a autorização chegou ao Brasil, em abril, a CA, com apoio da presidência e das diretorias especificas tratou de importar os equipamentos. O tempo foi curto, mas conseguimos receber os aparelhos no início de maio. Reunimos instrutores, em Goiás para um treinamento especial e eles foram as Federações repassar isto aos árbitros.

Voltando um pouco ao tempo, no final de 2011, a entidade nacional dos árbitros, em reunião com o Dr. Ricardo Teixeira deixou um documento com várias solicitações e lá constava um pedido para adoção da aquisição dos rádios e inserção dos adicionais.

Tais medidas visando a melhoria da qualidade da arbitragem foi ao encontro do pedido da entidade dos árbitros mas posso garantir que após quatro dias da posse do Dr Marin, com certeza não teve tempo de ler o documento, o que demonstrou estar “antenado” no setor.

2.Qual é a função/objetivo desses órgãos? Eles estão subordinados a quem?

Eles estão sendo entrevistados, portanto poderão detalhar as funções. O que posso antecipar é que são autônomos e estão vinculados diretamente ao Presidente Marin.

3. Onde são divulgados as ocorrências destes órgãos e os resultados obtidos?

Eles poderão responder. No site www.cbf.com.br tem um resumo das atividades dos órgãos.

4. Como esses órgãos se relacionam com a CONAF? Em que eles ajudam a melhorar o nível da arbitragem nacional?

Ressalto que o nome correto é CA-CBF e não CONAF. O relacionamento tem sido harmônico, porém independentes.

5. Após serem acionados, esses órgãos possuem autonomia para punir ou restringir algum nome para a RENAF ou Escalas? De que forma?

Enquanto presidente da CA durante os 5 anos, os instrutores faziam o papel do Ouvidor e recomendavam treinamentos para melhoria do desempenho dos envolvidos. Esta recomendação se mantém até os dias atuais.

6. Como e de que forma esses órgão podem ser acionados por torcedores e/ou dirigentes de clubes? Por que no site da CBF não consta o e-mail e o telefone do ouvidor e corregedor?

A Corregedoria pode receber as denúncias de qualquer pessoa, desde que, claro, identificada.

Ao contrário, a Ouvidoria da Arbitragem recebe as reclamações dos Clubes, Federações sobre a atuação dos árbitros e dos Árbitros. Existem casos em que o árbitro também questiona a avaliação recebida. Quanto as reclamações dos torcedores, elas devem ser dirigidas à Ouvidoria de Competicoes, aos cuidados do Dr. Roberto Sardinha.

7. Assessores, Instrutores e Presidentes de CEAFS também estão sujeitos a estes órgãos? 

Caso um dos Assessores ou Instrutores que colaboram com o setor se porte de maneira inadequada, a Corregedoria pode tomar providencias administrativas, ou seja, emitir parecer e encaminhar ao Departamento Jurídico, STJD e MP, se for o caso. A questão dos presidentes de CEAF´s, caso ocorra alguma informação, smj o órgão pode informar a entidade responsável que tem autonomia para que analise e tome as providencias julgadas oportunas.

8. Quais Federações do Brasil possuem esses órgãos? As que não possuem serão obrigadas a criar? Se sim, até quando?

Até o momento, tudo iniciou com a Federação Paulista, cujo presidente Dr. Marco Polo tem investido sobremaneira no setor há quase uma década. A Federação Pernambucana criou a figura do Ouvidor, a Cearense instituiu o Departamento de Arbitragem que será comandada pelo ex-presidente Leandro Serpa.

Falando em inovações lembro muito das feitas em SP como dois árbitros em campo durante dois anos seguidos; limitação de número de faltas (campeonato de aspirantes); tempo técnico; concentração; pré-temporadas etc. Hoje a FIFA cobra muito a CBF no sentido de se cumprir o que o IFAB determina para as partidas de futebol, o que acho muito correto, pois mudar o que esta previsto confunde – e muito – a cabeça de todos.

9. Desde a criação destes órgãos (na sua gestão), o que de concreto foi feito por estes órgãos? Onde estão os resultados?

Como disse acima, um resumo está divulgado no site www.cbf.com.br . A Ouvidoria, dos quase 1300 jogos recebeu 61 reclamações formais dos clubes e 1 de um árbitro solicitando revisão de sua nota.

10. É verdade que a RENAF de 2012 só demorou a sair porque muitos Árbitros indicados pelas comissões estavam (ainda estão) com irregularidades e isto dificultou o trabalho da corregedoria? E como ficam as CEAFS que insistem em indicar árbitros que não possuem todos os critérios exigidos pela CBF?  Não deveriam ser punidas?

Como foi o primeiro ano em que tais órgãos foram criados e devido ao elevado número de documentos analisados pela Corregedoria (mais de 6 mil), houve um atraso. Todavia, para 2013, várias medidas estão sendo tomadas para acelerar o processo. Faz parte do processo, pois mudanças levam tempo para serem assimiladas e as Ceafs estão empenhadas em atender ao que vem sendo colocado pela CBF. Não temos reclamações, ao contrário, a parceria é a palavra chave disto tudo.

Todos que desejam uma arbitragem qualificada, isenta e livre de pressões tem que trabalhar em parceria

11, Os Adicionais deram certo?

Em minha opinião sim, pois muitas arbitragens tiveram apoio deste novo Oficial.

Como foi o primeiro ano em competições nacionais e como tivemos pouco tempo entre a aprovação e o início das atividades, é óbvio que enfrentamos alguns problemas, mas nada tão absurdo que não possa ser aprimorado ano a ano. Quando a UEFA propôs esta função para a temporada 2007/2008 o mundo veio abaixo, como ocorre com toda novidade. A aquisição dos comunicadores foi outra medida salutar que a arbitragem recebeu de presente. É como o celular, ou seja, ninguém consegue viver sem um

12. Quanto ao Departamento de Arbitragem, quais as atribuições previstas pela FIFA?

Art. 6 – Departamento de Arbitragem – Introdução

1. Cada Associação Membro deverá criar um Departamento de Arbitragem dedicado a arbitragem, dirigido por um expert que tenha vasta experiência no âmbito da administração da arbitragem.

2. Se deve estabelecer este departamento de arbitragem dentro da administração da Associação Membro.

Art. 7 – Composição do Departamento de Arbitragem

1. O Departamento de arbitragem deve ser composto por um expert com ampla experiência e trabalhar em tempo integral, com a responsabilidade será administrar o desenvolvimento da arbitragem.

2. Pode ser necessário compor o Departamento de Arbitragem de acordo com as necessidades da AM.

Art. 8 – Os deveres do Departamento de Arbitragem:

* Dar suporte a Comissão de Arbitragem;
* Assistir a CA em todas as suas atribuições;
* Implementar as decisões adotadas pela comissão de árbitros;
* Realizar todas as tarefas relacionadas com a logística da arbitragem;
* Realizar toda as tarefas administrativas do departamento de arbitragem;
* Implementar os programas de desenvolvimento da arbitragem;
* Dirigir, se designado, os trabalhos da Escola Nacional de Arbitragem – ENAF;
* Organizar cursos para árbitros, instrutores, assessores;
* Preparar e produzir material didático de acordo com as regras de futebol promulgadas pela IFAB;
* Informar regularmente as suas atividades a comissão de árbitros; e,
* Auxiliar a Ouvidoria e a Corregedoria da Arbitragem (item agregado para a situação da CBF).

13. A Escola Nacional de Arbitragem foi criada para quais objetivos?

Um antigo sonho antigo da comunidade arbitral que terei a honra de dirigir. Terá como objetivo principal aprimorar os árbitros, assistentes, instrutores e assessores. É mais uma carga de trabalho que será tirada dos ombros da CA, cujo objetivo principal será o de cuidar das escalas de arbitragens. Lembro que o Armando Marques iniciou este processo e até escolheu batizou de Escola Nacional “Coronel Aulio Nazareno”, no final de 1997, todavia houve apenas a vontade, pois não foi regulamentada, ficando apenas no papel.

Veja a Resolução que fundou a ENAF-CBF:

http://imagens.cbf.com.br/201301/443529327.pdf

Além deste novo órgão, o Presidente Marin aprovou as normas que tratam da Estrutura da Arbitragem Nacional:

http://imagens.cbf.com.br/201301/1301975168.pdf

14. Falar da nova Comissão de Arbitragem, é dizer que?.

É um prazer falar da nova CA, pois são figuras destacadas. O Aristeu, por exemplo, um ano antes de deixar a atividade realizou curso de instrutor FIFA; O Antonio Pereira, inclusive pertenceu ao RAP-FIFA durante vários anos. O Nilson Monção sempre foi instrutor e atualmente dirige uma das melhores escolas de árbitros do país. O Dionisio Domingos foi remanejado para a ENAF-CBF e tem vasto conhecimento na área educacional. Enfim, um grupo de elite!

Lembro bem quando o Edson Rezende saiu e disse que a satisfação dele é que alguém do grupo pudesse dar continuidade ao trabalho iniciado em 2005. Lá se vão quase 8 anos.  Com a nova formatação da estrutura arbitral contará com suporte do DA e apoio da ENAF. Tem tudo para dar certo, ainda mais por conta dos atuais gestores não demonstrarem que são vaidosos!

Tenho absoluta certeza de que os novos dirigentes da CA não medirão esforços para dar continuidade a melhoria do setor. Espero que sejam gratos e que não esqueçam de como chegaram aos atuais postos. Quem sabe ser grato receberá gratidão.

15. A missão foi cumprida?

Nossa satisfação é do dever cumprido. Em 2006, o Dr. Edson Rezende de Oliveira determinou um diagnóstico da arbitragem brasileira. Ajudei muito nesta época. De posse das informações implantamos várias medidas para a melhoria da arbitragem nacional, com ênfase nos treinamentos práticos nas 27 Federações.

Quando o Dr. Edson Rezende apresentou problemas de saúde e deixou a função, em 7 de agosto de 2007, aceleramos o processo de modernização do setor, cujo modelo tem sido considerado por vários estados.

Neste período foram avaliados e treinados 3763 agentes do setor, sendo que deste grupo, 643 passaram pelo Centro de Treinamentos “Almirante Heleno Nunes”, um record que – sem dúvida – fez com que as Federações corressem atrás do tempo perdido. A cada ano, mais e mais entidades investiram um pouco mais no setor. Tais medidas, sem dúvidas foram fundamentais para melhorar a qualidade da arbitragem. Como as pessoas apenas acompanham fragmentos do trabalho falam ou escrevem fatos distorcidos da realidade. E como isto ocorre!

Afirmo que houve evolução na arbitragem estadual e nacional, graças ao trabalho de vários abnegados. Hoje não temos “donos das regras”, aqueles antigos dirigentes de arbitragem que não dividiam conhecimento com medo de perder a vaga. Hoje todos os instrutores são atualizados e recebem material de primeiro mundo. Eles tem a missão de desenvolver a arbitragem local e, por consequência, a nacional irá melhorar.

Provo, com números, que nunca antes na história deste país se fez tanto pela arbitragem como de 2005 para cá. Antigamente tudo era feito meio na boa vontade dos dirigentes, o que até saudamos, mas hoje é inegável a modernização do setor. Podem até dizer que a qualidade individual não se compara aos antigos árbitros, mas isto também vale para os jogadores. Os saudosistas tendem a achar que no seu tempo tudo era melhor. Mas são saudades de um tempo que nunca mais voltarão e, em alguns casos, até agradecemos por isto, haja vista os problemas criados por muitos deles.

Prefiro uma dúzia de bons instrutores do que 1 ou 2 “donos do livro de regras.”

Diante dos três cursos de instrutores (2007, 2010 e 2012) posso comemorar outro ganho real: das 27 Federações, mais de 2/3 já realizam pré-temporadas nos estados. Uma, inclusive, faz inter-temporada (Espirito Santo)…. Como isto é bom!

Satisfação também tivemos ao estabelecermos o Plano de Carreira para a Arbitragem Brasileira, com o estabelecimento de categorias ESPECIAL para acolher os ex-árbitros que deixam a lista internacional antes da idade limite e, após 7 de janeiro, os aspirantes que chegam a 37 anos e não foram promovidos; Aspirantes (inclusive para os assistentes que sempre eram esquecidos), CBF-1 e CBF-2.

O Delegado Especial, criado em 2008, com o Rio de Janeiro, aproveitou e criou a figura do Treinador de Árbitros, no ano seguinte, o que muito nos agradou, pois as boas ideias devem ser aproveitadas.

Antes de encerrar, a função de Assessor de Arbitragem é algo que merece muita atenção das Federações, mas isto é um outro assunto para muitas linhas….

Dos sete árbitros pré-selecionados para Copa do Mundo, quatro deles foram promovidos após 2007 e pertencem a uma nova geração (Leandro Vuaden, Sandro Ricci, Emerson Carvalho e Marcelo Van Gasse).

Falando de Alagoas, tenho certeza de que o Francisco Carlos Nascimento – se derem tempo – atingirá um elevado patamar na arbitragem nacional. Muitos comentaristas não concebem um árbitro fora do eixo chegar lá. Com calma, apoio e diligência ele ocupara seu espaço, pois quando foi lançado, em 2009 foi considerado uma das revelações.

Se em 2008, a RENAF contava com apenas 17 árbitros com idade inferior a 30 anos, em 2013 este número ultrapassou uma centena., além dos que os mais atentos – se responsáveis e não forem movidos pela pessoalidade – perceberão uma nova safra sendo semeada.

Falando em faixa etária, lembro que quando reduzimos para 30 anos a idade para ingresso na RENAF, o mundo desabou sobre nossas cabeças, todavia o tempo demonstrou o acerto da decisão. Independentemente da opinião pessoal, como dirigente temos que visualizar o futuro. Basta ler o que os atuais dirigentes da FIFA tem sinalizado para as Copas de 2018 e 2022…

Por tudo que temos observado podemos afirmar que o dever foi cumprido!


Vamos em frente e até qualquer momento.


Referência: http://www.noticianamira.com.br/2013/01/materia-especial-terceira-parte-sergio.html

Como sempre Sérgio Corrêa nos prestigia com sua atenção peculiar. Sou suspeito de falar do mesmo, pois virei seu admirador e seu fã por tudo que fez e faz pela arbitragem nacional.

Obrigado mais uma vez pelo respeito e pelo carinho com este veiculo apaixonado por arbitragem.

Um grande abraço do amigo Paulo Lira.

Autor: Sérgio Corrêa

Árbitro na Federação Paulista de Futebol (1981-2001) e da Confederação Brasileira de Futebol (1989 a 2001); Ocupou cargos administrativos nos sindicatos entre 1990-93 e 1996-03, Eleito e reeleito presidente para dois mandatos: o primeiro compreendido entre 03/02/2003 a 08/04/207 e o segundo, de 09/04/2007 a 08/04/2011. Deixou a função para assumir a presidência da CA-CBF. Pela Associação Nacional dos Árbitros de Futebol ocupou os cargos de secretário-geral, entre 25/10/1997 e 13/05/2003. Já, na Comissão de Arbitragem, foi secretário-geral entre 25/10/2005 e 06/08/2007. Nomeado presidente da CA-CBF em duas oportunidades, a primeira entre 07/08/2007 a 22/08/2012, a segunda, de 13/05/2014 a 28/09/2016. Também foi diretor-presidente da Escola Nacional de Arbitragem de Futebol, entre 07/01/2013 a 12/05/2014. Atualmente, continua chefiando o DA (desde 22/08/12) e lidera o projeto de árbitro assistente de vídeo, nomeado junto a FIFA desde 15/09/2015.

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