Entrevista – 28/02/2008

Entrevista com o presidente da Conaf, um dos fundadores da Anaf. Foi secretário-geral de 1998 a 2003 e passou por vários cargos no Safesp, no período de 1993 a 2007.

Hoje foi reproduzir uma entrevista de 2008 em cinco capítulos e publicada no site http://www.anaf.com.br/2014/?p=2548

Histórica entrevista com Sérgio Correa

A entrevista de 28 de Fevereiro de 2008

Publicamos histórica entrevista com o Chefe do Departamento de Arbitragem da CBF, Dr. Sérgio Correa.

O ex-presidente da Conaf é um dos fundadores da Anaf, foi secretário-geral de 1998 a 2003 e passou por vários cargos no Sindicato dos Árbitros de Futebol do Estado de Sao Paulo, no período de 1993 a 2007, quando assumiu a CA-CBF.

1 – Dr. Sérgio Corrêa, como presidente da CA/CBF, qual a sua avaliação?

R – Positiva. O único lamento foi ter assumido da forma como foi, ou seja, por motivo de saúde do Dr. Édson Rezende, em 7 de agosto de 2007. Ainda bem que ele está quase pronto para novas batalhas. Naquela oportunidade prevíamos muita turbulência, pois o Edson era a figura que todos desejavam ver na presidência.

Todos comentam sobre a 21ª rodada do Brasileiro/2007, com muitos problemas considerados graves pelos dirigentes. Após necessária reunião, o apoio do presidente Ricardo Teixeira, que determinou diretrizes que acelerassem o processo de renovação estrutural na arbitragem brasileira foi fundamental para recuperação da arbitragem. Este processo foi iniciado em 2006, sob a presidência do Edson Rezende. Das medidas, destacamos:

Quinto árbitro Assistente – Designação do quinto árbitro para qualquer eventualidade.

Sistema de Comunicação entre os Árbitros: O recurso foi adotado para melhorar a comunicação entre os árbitros e auxiliares em cinco partidas do campeonato, testados nos seguintes jogos:

04/11 – Cruzeiro/MG x Flamengo/RJ

11/11 – Internacional/RS x Cruzeiro/MG

11/11 – Flamengo/RJ x Santos/SP

25/11 – Internacional/RS x Palmeiras/SP

02/12 – Cruzeiro/MG x América/RN

02/12 – Grêmio/RS x Corinthians/SP

Reavaliação geral – Foi realizada uma reavaliação do grupo que obteve notas insatisfatórias nos últimos testes, no dia 14 de setembro. Quem não atingir a média 7 estará fora – em 2008, a média atingida será de 8. Será obrigatória a divulgação com antecedência da realização do testes assim como a divulgação dos resultados. Os testes físicos das mulheres terão como parâmetros os mesmos índices usados para os homens.

Obs.: Os árbitros foram reavaliados e, dos trinta e seis (36) reprovados, trinta e três (33) obtiveram a média mínima exigida.

Renovação da Arbitragem – Para 2008 está previsto um percentual de renovação do Quadro entre 30 e 40%, com o alerta para o fato de que a renovação começar nas Federações para que os árbitros cheguem ao Quadro Nacional para iniciar um aprimoramento. A renovação não é pela idade, mas pelo talento.

O processo de renovação teve início em 2006, com quatro (4) promoções de árbitros para a Série A e, em 2007, com as diretrizes da presidência da CBF, dezesseis (16) novos árbitros foram promovidos; e, (b) FIFA – Na lista internacional, tivemos uma renovação de 20%, entre os árbitros e árbitros assistentes masculinos e de 83% no feminino, com a permanência de apenas uma (1), das seis (6) que compunham a referida lista.

Classificação Nacional dos Árbitros de Futebol – Em princípio, será elaborado um estudo com base nos número de jogos dos últimos três anos (Série A – peso 5 por partida; Copa do Brasil – peso 4; Série B – peso 3 e Série C – peso 2); a média das notas obtidas dos observadores,  além de notas para avaliações físicas e teóricas realizadas anualmente. Um alerta geral: aguardamos sugestões até o dia 28 de março. Todas as Federações receberam um projeto, no final de 2007, portanto os interessados poderão participar deste trabalho. Também estamos analisando se a pontuação oriunda do Rankig das Federações divulgada pela Diretoria de Competições – DCO, como também na classificação estadual dos árbitros em seus respectivos estados, tudo em caráter experimental.

Treinamento na Granja Comary – Foi realizado, no período de 15 a 20/10, um Curso de Aprimoramento Teórico, Físico e Prático para vinte e nove (29) árbitros jovens INDICADOS PELAS FEDERAÇÕES: (Antônio Costa/AC; Charles Ferreira/AL; Milton Silva/AM; Lúcio Araújo/BA; Francisco Almeida/CE; Wilton Sampaio/DF; Sandro Ricci/DF; Devarly Rosário/ES; Andre Castro/GO; Silvio Silva/MA; Ricardo Ribeiro/MG; Marcos Pereira/MS; Mauricio Siqueira/MT; Kleber Almeida/PA; Emerson Silva/PB; Emerson Sobral/PE; Antonio Nunes/PI; Nilo Júnior/PR; Antônio Schneider/RJ; Antonio Frederico Santos/RJ; Péricles Cortez/RJ; Izac Oliveira/RN; Arnoldo Figarela/RO; Rosinildo Silva/RR; Marcio Chagas/RS; Célio Amorim/SC; Rogério Rocha/SE; José Carvalho/SP; e, Adriano Carvalho/TO), com participação dos melhores instrutores disponíveis no futebol brasileiro. Outros árbitros poderiam participar, mas face a disponibilidade limitou-se as vagas. (foto em destaque)

Uso do Teipe – Passou a valer como forma de denúncia ao STJD em fatos em que aconteçam excessos no comportamento de técnicos e dirigentes antes, durante e depois de jogos que se constituam em uma forma de coação à arbitragem. Vale também para fatos que não forem relatados pelos árbitros nas súmulas.

Tutores – Estamos estudando a criação de um grupo de tutores para acompanhar a atuação dos árbitros, com orientações tão logo a partida se encerre, porém devido as dimensões continentais de nosso país estamos avaliando custos.

2 – A CBF já o efetivou?

R – Independentemente da denominação, “interino” ou “efetivo”, o presidente é cargo de confiança da presidência. Não quero comparar, mas treinadores são contratados para realizar um trabalho e, dependendo dos resultados, pode durar menos do que gostaria. O presidente Ricardo Teixeira sabe que pode contar comigo independentemente de função. Aproveito para dizer que existem muitos mitos em relação a função de presidente. Se as pessoas soubessem a carga de trabalho não ficariam sonhando ou, como dizia o Armando Marques, “comprando ternos”.

3 – Como Sérgio Corrêa entrou no mundo da arbitragem?

R – Em 1981, com a realização do curso de árbitros, na FPF.

4 – Como foi sua passagem pela Comissão de Árbitros de São Paulo?

R – Foi muito boa. A confiança e o apoio proporcionados pelo presidente Marco Polo aos integrantes foi importante para a realização de um grande Paulistão. Foi um aprendizado elevado que contribuiu muito no trabalho da Comissão Nacional de Arbitragem.

5 – Criou algum desafeto ou inimizade em razão da arbitragem ao longo de sua carreira como árbitro e como dirigente?

R – Não. Existem pessoas com pensamentos diferentes, que respeitamos. Na palavra do presidente do Livro de Regras do Sindicato – 2005/2006 tem a seguinte frase: “(..) tenho um sonho: um dia espero reunir os profundos conhecedores das leis do jogo que, despidos de vaidades e querelas pessoais possam analisar as regras do jogo e apresentar trabalhos que só elevem a qualidade da arbitragem. Sinceramente acredito que isto um dia será possível”. Para que um sonho torne-se realidade, é necessário que tenhamos a capacidade de sonhar. Acredito nisto. Gosto de ouvir as opiniões contrárias, a oposição às idéias, pois elas são as que servem para nortear os rumos de nossas vidas e, claro, ouvir os amigos sinceros e não os de ocasião.

6 – Em 1997 tivemos o escândalo Ivens Mendes, em 2005, a Máfia do Apito que poderia ter sido evitada se o mito da arbitragem Armando Marques tivesse tomado providências contra alguns árbitros que apresentaram documentos inválidos para suas inscrições. Você não teme que algum tipo de escândalo venha a manchar a sua imagem?

R – Não, pois as atitudes definem os resultados das nossas ações. Com uma atitude boa teremos bons resultados. Por outro lado, no Brasil é comum plantarem-se notícias negativas, que prosperam. E não há o mesmo destaque para a resposta. É como numa briga de rua: o primeiro que bate, às vezes deixa sua marca. O duro é você pagar por conta de erros de terceiros como ocorreu no episódio “Máfia dos Apostadores” e não na “Máfia do Apito” como rotularam. Outra coisa que pode minimizar é não abrir mão dos princípios e não abrirmos concessões que é um verdadeiro bumerangue.

7 – A Anaf passou por uma eleição conturbada, está com nova diretoria. Ela tem o aval da CA/CBF?

R – Aprendi na vida que acima das pessoas estão as Instituições. A diretoria da Anaf tem uma missão e o senhor da razão (o tempo) demonstrará o que cada um fez de certo e de errado. As escolhas foram feitas e devemos respeitá-las. Cada um sabe qual a atitude tomada e podem até tentar destruir a imagem alcançada ao longo de décadas, mas não conseguirão por um motivo simples: a consciência das pessoas corretas cobra mais do que as palavras ditas nos momentos de raiva e de elevada emoção. Estes momentos servem para mostrar como as pessoas reagem… Desde o princípio informei e registrei, por ofício, aos três candidatos sobre a fragilidade do processo. Não deram ouvidos e preferiram ir para justiça. Esta, por sua vez, anulou o pleito. Deixei a presidência da comissão eleitoral antes e o Marco Antônio Martins assumiu. Disse a eles: sempre falam e cobram união dos árbitros, mas não dão exemplos.

8 – Foi mais difícil apitar ou está sendo escalar árbitros?

R – É mais difícil ser dirigente e disto não tenho nenhuma dúvida. No final de semana, os dirigentes de arbitragens sofrem e torcem para que todos os que estão trabalhando consigam colocar em prática o que foi treinado, mas em arbitragem não se tem certeza dos 100% de acerto desejados por todos. O futebol é um esporte diferenciado e somente após o apito final do árbitro que podemos falar alguma coisa. Um grande clássico pode ter uma grande arbitragem e uma péssima exibição dos craques, ou vice-versa…

9 – Em uma entrevista dada ao globoesporte.com, você afirmou que os árbitros que tivessem atuações desastrosas voltariam  para a escolinha. Isso aconteceu? Cite um exemplo.

R – Os árbitros não voltaram para a “escolinha”. Disse e afirmo que o árbitro não pode é ficar parado. Ele precisa receber mais treinamentos dos Instrutores e continuar atuando. Como estamos num regime profissional, é necessário que os árbitros tenham sempre uma atuação regular e, se cometerem equivocos, devem ser responsabilizados na medida correta. Mesmo porque o afastamento significa que o profissional da arbitragem não vai receber, ao contrário do goleiro que toma um “frango” ou do craque que perde um gol feito. A CA-CBF não gosta, também, de divulgar “punições” à árbitros, mas, em determinados momentos, a realidade é dura e deve ser encarada sempre com a verdade. O jogador que não tem regularidade não tem seu contrato renovado; o árbitro não é diferente, só que perde escalas e sua carreira fica estagnada. Tem árbitro com muitos anos de CBF e não avança. A comissão se baseia nas informações oriundas ds Federações.

10 – Por que é que existe uma grande diferença entre a arbitragem da Libertadores e a do Campeonato Brasileiro?

R – A orientação de cada país e de cada comissão difere muito. Em alguns países, o jogo não tem tantas paralisações e, em outros, se tem a cultura de marcar muitas faltas. O mais importante é preparar os árbitros conforme a entidade maior (FIFA) determina e treinar muito para que todos tenham procedimentos parecidos. Por isto, a CBF, por meio da comissão e da EBF, solicitou o Curso de Instrutores da Fifa realizada em novembro, na Granja do Comary. Treinamos um instrutor de cada estado atualizado, com o dever de repassar a mesma mensagem em todos os estados. Esperamos que, no próximo Brasileirão, tenhamos uma uniformidade maior no posicionamento, na forma de exibir os cartões, na utilização dos sinais e do apito que, somados à personalidade de cada um, tragam resultados melhores do que tivemos em 2007.

continua…..

 

Autor: Sérgio Corrêa

Árbitro na Federação Paulista de Futebol (1981-2001) e da Confederação Brasileira de Futebol (1989 a 2001); Ocupou cargos administrativos nos sindicatos entre 1990-93 e 1996-03, Eleito e reeleito presidente para dois mandatos: o primeiro compreendido entre 03/02/2003 a 08/04/207 e o segundo, de 09/04/2007 a 08/04/2011. Deixou a função para assumir a presidência da CA-CBF. Pela Associação Nacional dos Árbitros de Futebol ocupou os cargos de secretário-geral, entre 25/10/1997 e 13/05/2003. Já, na Comissão de Arbitragem, foi secretário-geral entre 25/10/2005 e 06/08/2007. Nomeado presidente da CA-CBF em duas oportunidades, a primeira entre 07/08/2007 a 22/08/2012, a segunda, de 13/05/2014 a 28/09/2016. Também foi diretor-presidente da Escola Nacional de Arbitragem de Futebol, entre 07/01/2013 a 12/05/2014. Atualmente, continua chefiando o DA (desde 22/08/12) e lidera o projeto de árbitro assistente de vídeo, nomeado junto a FIFA desde 15/09/2015.

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