Saiba tudo que pensa o “chefão” da arbitragem brasileira – 2011

08/12/2011 às 08h07 – Atualizada em 08/12/2011 às 08h11

Acompanhar entrevistas de Sergio Correa é um fato raro.

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O silencioso presidente da Comissão de Arbitragem da CBF, porém, gosta de falar. Na quarta, no Footecon, congresso de futebol realizado anualmente no Rio de Janeiro, ele participou de painel de discussão sobre os homens do apito. Com argumentos e dados em mão, saiu em defesa da sempre criticada arbitragem em um raro contato com a imprensa.

“Se não vier alguma coisa nova, continuaremos a ser massacrados”, reclamou Correa, favorável ao uso da tecnologia, ao fim dos sorteios para definição das escalas, à reformulação das leis esportivas e até a punições mais duras para os árbitros que cometam erros graves. O que, segundo ele, é raro. Sergio Correa aponta que o juiz toma 180 decisões dentro de cada partida. “Errar 5% está bom? São nove situações em que ele vai errar”.

Ex-árbitro, Correa atendeu um pequeno grupo de repórteres para uma conversa logo depois de participar de palestra conduzida pelo também ex-juiz Oscar Ruíz, colombiano. Confira os melhores trechos da entrevista do homem que manda no apito do futebol brasileiro:

JB: Para muita gente, a indicação do Andrés Sanchez para a CBF pressionou a arbitragem a duas rodadas do fim do Brasileiro. O senhor acredita nisso?

De maneira nenhuma. O árbitro não se preocupa com isso, quer apitar futebol. Isso é bobagem, todo ano tem a teoria da conspiração, a mesma ladainha. Vamos colocar quem no comando das entidades? Já vi jornalista vibrando com gol. O que faz? Demite? Cada um tem seu time e tem que respeitar.

JB: Os árbitros reclamam muito sobre o sorteio para apitar os jogos. Como mudar isso?

É uma lei federal e tem que mudar. Gostaria que o deputado que criticou a escolha do (Leandro) Vuaden nos ajudasse a mudar a sistemática do sorteio. Não podemos sortear os treinadores da Seleção. Espero que ele aproveite a oportunidade para pensar um pouco.

Observação: O deputado Marco Maia (PT-RS) criticou durante a cerimônia do Craque do Brasileirão a escolha de Vuaden como árbitro da competição. “Dar o prêmio depois do pênalti que ele deu no Gre-Nal, vou te contar…”, reclamou.

JB: Algum trabalho efetivamente tem sido feito para conseguir isso?

É feito o sorteio e fazemos toda semana, é aberto a todos. Gostaria que ele não existisse, mas se existe vamos cumprir. Se as autoridades demonstrarem a mesma disposição desse último evento, o sorteio pode cair.

JB: Por que há tantos árbitros de Sul e Sudeste?

Estamos tentando abraçar o Brasil. Às vezes colocamos um árbitro do Norte e do Nordeste e há uma crítica contundente, de que lá nem futebol tem. Se eles não participarem do futebol, nunca faremos a região prosperar.

JB: O senhor acredita que a arbitragem pode incorporar mais a tecnologia no futuro?Sergio  

Existem correntes favoráveis, mas a Fifa é hoje contrária a esse tipo de auxílio. O futuro é a tecnologia, não tem como evitar. Daqui a pouco o árbitro vai ter uma câmera no relógio. O futuro virá, mas hoje a Fifa só trabalha com o chip na bola. O árbitro corria 4 km e hoje corre 12 km. Há uma evolução e isso passa pela tecnologia.

JB: O árbitro deixará de ser tão bombardeado pelas críticas?

O árbitro hoje está no limite físico e psicológico. É tanta informação, com blogs, sites, televisões, rádios… é impossível uma pessoa só acompanhar tudo. Precisamos ter alguma coisa daqui em diante, como a tecnologia, um árbitro a mais, alguma situação na regra, um tribunal punindo mais que pune. Às vezes, a legislação não ajuda os auditores a aplicar penas mais fortes nos jogadores, nos treinadores, nos dirigentes e nos próprios árbitros. Se não vier alguma coisa, continuaremos sendo massacrados.

JB: Qual sua avaliação sobre os últimos anos? 

O jogador é um profissional de alto nível e o árbitro tem que trabalhar e treinar nas horas vagas, alguns até perdem o emprego por isso. Tenho um número de que a arbitragem melhorou nos últimos quatro anos. Não fosse o trabalho de 2008 para cá, e onde renovamos, teríamos ainda mais dificuldades. A evolução física exige o árbitro mais preparado, só que o mais preparado é mais novo e não é experiente. Temos que conciliar e é muito difícil.

JB: Há uma renovação em curso? 

Quatro anos atrás, só tínhamos o Símon apitando no exterior. Hoje temos quatro ou cinco disputando uma ou duas vagas na próxima Copa do Mundo. O Ricci (Sandro Meira) e o Vuaden (Leandro), eleitos pelos jornalistas os dois melhores do país nos últimos anos, já fazem parte desse grupo.

JB: Há alguma perspectiva de profissionalização dos árbitros?

É uma utopia. Seria muito bom se viesse, é muito interessante, mas ninguém diz quem paga a conta. Temos 420 árbitros espalhados pelo país, não é só a Série A. É a B, a C e a D. São 420, mais 93 mulheres. São mais de 500 profissionais. Se você coloca um salário de R$ 3 mil por mês, é R$ 513 mil por mês. Mais os impostos, quase dobra. Multiplica por 13 meses, dá R$ 13 milhões. Então inviabiliza. O futebol não vive de Série A.

JB: Por que as punições aos árbitros não são tão rígidas quanto aos jogadores?

O árbitro é dos que mais são punidos. Vocês não acompanham e nós não divulgamos. O treinador não divulga os bastidores de suas equipes, resolve intermanente. Não vamos expor o ser humano. Tem erros que não podem ser evitados. Nós já divulgamos punição ao Carlos Símon. Quando é um erro entendido do ser humano e a gente percebe que ele tem um histórico de grandes arbitragens, é diferente. O Pelé, o Messi e o Neymar não jogam bem todos os jogos.

JB: Qual é a nota da arbitragem nacional?

A média nacional da arbitragem em 1123 partidas é de 8,21. Os que tiraram acima estão dentro do padrão e quem tirou abaixo vai para treinamento. É o que fazemos e não divulgamos. Na Copa do Mundo, teve 96% de acerto que a Fifa divulgou das marcações. O árbitro toma 180 decisões por jogo. O que se admite como possível de errar? Está bom 5%? Ele vai errar nove situações em uma partida de futebol.

http://www.jb.com.br/esportes/noticias/2011/12/08/saiba-tudo-que-pensa-o-chefao-da-arbitragem-brasileira/

 

Autor: Sérgio Corrêa

Árbitro na Federação Paulista de Futebol (1981-2001) e da Confederação Brasileira de Futebol (1989 a 2001); Ocupou cargos administrativos nos sindicatos entre 1990-93 e 1996-03, Eleito e reeleito presidente para dois mandatos: o primeiro compreendido entre 03/02/2003 a 08/04/207 e o segundo, de 09/04/2007 a 08/04/2011. Deixou a função para assumir a presidência da CA-CBF. Pela Associação Nacional dos Árbitros de Futebol ocupou os cargos de secretário-geral, entre 25/10/1997 e 13/05/2003. Já, na Comissão de Arbitragem, foi secretário-geral entre 25/10/2005 e 06/08/2007. Nomeado presidente da CA-CBF em duas oportunidades, a primeira entre 07/08/2007 a 22/08/2012, a segunda, de 13/05/2014 a 28/09/2016. Também foi diretor-presidente da Escola Nacional de Arbitragem de Futebol, entre 07/01/2013 a 12/05/2014. Atualmente, continua chefiando o DA (desde 22/08/12) e lidera o projeto de árbitro assistente de vídeo, nomeado junto a FIFA desde 15/09/2015.

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