Alberto Helder 12/01/2010

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

USO DE TECNOLOGIA NAS ARBITRAGENS DE FUTEBOL – POR MANOEL SERAPIÃO FILHO

Este meu bom amigo (na foto, obtida em pleno Maracanã) apresentou recentemente no Rio de Janeiro, no Footecon-2009, o trabalho que a seguir se reproduz, tal e qual foi exposto.
Sobre este assunto será interessante recolher a opinião dos leitores, razão porque se solicita que, por obséquio, expresse o seu parecer no local apropriado (Comentários). Ficamos a aguardar a sua valiosa contribuição.
OBJETIVO
Evitar erros de arbitragem em LANCES DECISIVOS e possibilitar que os resultados das partidas e/ou das competições SEJAM SEMPRE LEGÍTIMOS.
VANTAGENS

Haveria vantagens desde o campo social ao econômico e, principalmente, no ético. Uma delas, todavia, merece destaque: diminuição da pressão psicológica exercida sobre os árbitros, que lhes prejudica o controle emocional e, pois, acarretam as conseqüências negativas que todos sabem.

CONDICIONANTES

A aplicação da tecnologia, porém, não pode dar-se incondicionalmente.
Deve, assim, submeter-se às condições abaixo:
I) que os princípios básicos da atual sistemática de arbitragem não sejam alterados;
II) que não haja perda de tempo com paralisações dos jogos para consultas e que haja o mínimo possível de interferência na arbitragem pela pessoa encarregada da ajuda tecnológica – “Assistente de vídeo – AV”;
III) que não haja diminuição da dinâmica do futebol; e
IV) que as decisões que exigem interpretação continuem sendo de competência exclusiva dos Árbitros e de seus Assistentes.

DIRETRIZES 

Em conseqüência das mencionadas condicionantes, a aplicação da tecnologia deve dar-se de acordo com as diretrizes adiante:
a) os Árbitros continuariam trabalhando da maneira atual, sem, portanto, alterar a forma e a essência das arbitragens, especialmente sem que o princípio da imediatidade das decisões fosse afetado.
b) os Árbitros jamais fariam qualquer consulta à pessoa encarregada do recurso tecnológico – “Assistente de vídeo – AV” –, ainda que o jogo estivesse paralisado;
c) o “Assistente de vídeo – AV”, de seu turno, só atuaria quando o jogo estivesse paralisado. Haveria, apenas, três únicas exceções: bola que entrasse na meta sem que o gol fosse marcado; gol evitado com mão clara; e casos de agressão física (conduta violenta). Isso, porém, se o jogo já não estivesse paralisado por outro motivo; e
d) o “Assistente de vídeo – AV” só atuaria em lances exatos, de fato, não de interpretação. A única exceção a essa regra seria o impedimento por “interferir no adversário”, que, ao lado de envolver situação de fato – estar em posição de impedimento -, também exige interpretação quanto à influência.

FORMA, LANCES E PROCEDIMENTO

Seria designado um “Assistente de Vídeo – AV”, com atribuição de, utilizando-se de filmagem em tempo real e com possibilidade de imediato replay, decidir os seguintes e importantes lances de fato, isto é, que não exigem interpretação:
1) lances de dúvida sobre se a bola entrou ou não na meta.
O “AV” só atuaria para informar que houve gol, se a bola entrasse na meta e não houvesse marcação e para corrigir erro de marcação de gol sem que a bola houvesse entrado na meta.
Observe-se, por muito importante, que a última hipótese – marcação de gol sem que a bola houvesse entrado na meta – seria muito rara, senão inexistente, porquanto, cientes da ajuda tecnológica, os árbitros só marcariam gol com absoluta convicção, ou seja, quando a bola entrasse claramente na meta, de modo a evitar paralisação indevida do jogo e, sobretudo, para não frustrar uma nova oportunidade de gol que poderia surgir no lance seguinte.
2) impedimentos.
Doravante, os Árbitros e Árbitros Assistentes, por igual, só marcariam impedimento se tivessem absoluta convicção. Não marcariam, portanto, os lances ajustados, os que ocasionassem dúvida, possibilitassem erro.Nesses casos – de dúvida, de possibilidade de erro –, nada seria marcado pelos árbitros. Se, todavia, houvesse impedimento e o jogador impedido fizesse gol ou sofresse pênalti, ou, ainda, se possibilitasse que tais lances (gol ou pênalti) ocorressem imediatamente na jogada seguinte, com um companheiro a quem passasse a bola, o “Assistente de Vídeo” atuaria e o impedimento seria marcado.

Ressalve-se, porém, que se qualquer desses lances não ocorresse – gol ou pênalti – o “AV” não atuaria e o jogo não seria interrompido, aumentando, assim, a dinâmica do futebol, ao contrário do que hoje ocorre com freqüência, pois há muita marcação de impedimento inexistente.

Registre-se, nesse passo, que as marcações de impedimentos inexistentes cortam oportunidade de gols, que podem subverter os resultados das partidas. Dano irreparável!

Também deve ser reiterado que o impedimento consistente em “interferir no adversário”, que é um misto de fato (estar em posição de impedimento) e de interpretação (interferir no adversário), seria, quanto a esta faceta, a única atuação do “AV” no campo da interpretação.

Recorde-se, ademais, que a atuação do “Assistente de Vídeo” em lances de impedimento só se daria quando o jogo já estivesse paralisado, ou seja, quando fosse marcado um gol ou um pênalti.

Não haveria, portanto, interrupção da partida nem diminuição de sua dinâmica em razão da atuação do “AV”.3) saídas da bola pela linha de meta que não fossem marcadas.

O “Assistente de vídeo” só atuaria para indicar que a bola saiu. Essa atuação, porém, só se daria se na mesma jogada ou imediatamente na seguinte fosse feito um gol ou cometido um pênalti.

Note-se que, à semelhança dos lances dos itens 1 e 2, os árbitros só atuariam com absoluta convicção, de modo a não paralisar o jogo sem que a bola houvesse efetivamente saído.

Também deve ser observado que apenas a marcação equivocada de saída de bola seria prejudicial ao futebol, porquanto o gol marcado após a saída de bola seria anulado pelo “AV”.

4) tiros livres diretos a favor do ataque, ocorridos dentro ou fora da área de pênalti.
O “AV” só atuaria se a falta fosse marcada no local errado (se dentro da área fosse marcada fora e se fora marcada dentro). Correção apenas de erro de fato. A marcação das faltas, por requererem interpretação, como é da filosofia deste trabalho, continuariam sendo atribuição exclusiva dos árbitros.5) gols marcados ou evitados com mão clara e mão clara que possibilitasse marcação de gol ou de pênalti, desde que na mesma jogada ou imediatamente na seguinte.
O “Assistente de vídeo” só atuaria em lances que não exigissem interpretação, quer dizer, quando, pela clareza da mão, houvesse certeza de que não foi marcada porque não foi vista. Reforce-se que, se houvesse necessidade de interpretação, ou seja, se teria sido bola-na-mão ou mão-na-bola, o “AV” não atuaria.

O lance de mão clara que gerou o gol da França contra a Irlanda, pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2010, e o gol evitado com mão clara no jogo entre Brasil e Egito na Copa das Confederações de 2009 são exemplos insuperáveis para legitimar e impor uso da tecnologia.

6) agressões físicas (conduta violenta) não percebidas pela arbitragem.
O “Assistente de vídeo” atuaria de imediato para impedir que o agressor continuasse em campo e pudesse beneficiar sua equipe. Essa imediatidade da atuação do “AV”, todavia, não poderia prejudicar a aplicação da lei da vantagem.

CONSIDERAÇÕES DE CUNHO GERAL

I) O processo poderia ser iniciado imediatamente e sem custo adicional. Para tanto, bastaria disponibilizar um simples monitor para que o “Assistente de vídeo” se utilizasse das mesmas imagens que hoje denunciam e provam os erros e acertos das arbitragens.
II) A absoluta convicção a que nos referimos, para lances ajustados, evitaria tanto paralisações indevidas do jogo, como frustração de oportunidades de gol. A absorção dessa filosofia seria muito fácil, porque todos os árbitros estariam contando com o “AV” para corrigir eventuais irregularidades.
III) A afirmação de que o principio da imediatidade das decisões das arbitragens não seria afetado nasce da constatação de que o tempo que transcorre entre uma paralisação do jogo e seu reinício, após um lance decisivo, é bem superior ao tempo que o “AV” necessitaria para atuar.
De outro lado, mesmo quando o “AV” paralisasse o jogo, a importância dos lances que o autorizariam – bola que entrasse na meta sem que o gol fosse marcado; gol evitado com mão clara; e casos de agressão física – justificariam, plenamente, qualquer perda de tempo, ainda que grande, embora as correspondentes decisões e informações possam ser tomadas e prestadas pelo “AV” em quatro ou cinco segundos, no máximo.
IV) O “Assistente de Vídeo – AV” não se manifestaria sobre lances que as imagens não elucidassem claramente ou mesmo quando ele próprio ficasse em dúvida. Nesses casos, a decisão da arbitragem seria definitiva. Note-se que o “AV” não ficaria em dúvida, tampouco que as imagens jamais deixariam de elucidar lances abertos, claros. Desse modo, os erros grosseiros, que causam revolta e diminuem a credibilidade do futebol, seriam sempre evitados.
V) Os Árbitros e Árbitros Assistentes precisariam de simples orientações para se ajustarem ao processo. Os “Assistentes de vídeo”, todavia, necessitariam de treinamento mais aprofundado, para saberem em que lances e em que oportunidades deveriam, efetivamente, atuar, de modo a não interferir no trabalho dos árbitros e no desenvolvimento das partidas. Lances ilustrativos ajudariam no treinamento de ambos.
VI) Como o “Assistente de vídeo” deveria ter conhecimento profundo das regras de futebol e muita prudência, somente árbitros bem experientes e/ou ex-árbitros de reconhecida capacidade deveriam exercer a função.
VII) A impossibilidade de uso geral e simultâneo da tecnologia no futebol não constitui obstáculo para se dar início ao processo onde for possível.
Primeiramente, porque o princípio da igualdade, que é próprio e indispensável nas competições, não seria afetado, pois o erro de arbitragem evitado em um jogo não interfere, absolutamente, no resultado de outro.
Prova disso, aliás, é que a designação de árbitros do quadro da FIFA e do quadro básico, para partidas de uma mesma competição – o que, indiscutivelmente, caracteriza diferença – não quebra esse princípio da igualdade nem torna ilegítimos os resultados dos jogos, ainda que haja erro de arbitragem em um e não ocorra em outro.
Depois, porque nada da evolução do homem e do mundo ocorre ao mesmo tempo e em todos os lugares. Tudo obedece a um processo natural de evolução.
Ressalve-se, porém, que o ideal seria usar tecnologia em todas as partidas de uma competição, embora nada obste a que isso ocorra, por hipótese, apenas em fases finais, em jogos decisivos.
VIII) Embora a pretensão de se utilizar assistentes por trás das balizas já revele quebra do obstinado conservadorismo da FIFA, suponho que os efeitos não serão tão eficazes quanto os da tecnologia, sem nos esquecermos da elevação das despesas e da suspeição que poderia recair sobre tais assistentes quando deixassem de marcar um gol, em razão da velocidade desenvolvida pela bola.
Por igual, não se pode esquecer dos conflitos de interpretação que poderiam ser gerados, acaso, como se fala, a FIFA decida destinar a tais assistentes atribuições outras que não as de apenas definir se a bola entrou ou não na meta.
IX) Por fim, conjecturo que, uma vez absorvida essa inovação pela cultura do futebol, a tecnologia será estendida até para lances de interpretação, quando ocasionem erro que a ética não possa tolerar.
O processo de evolução do mundo é irreversível e o futebol não pode ser o único seguimento a rejeitá-lo. Afinal, o homem correto clama por justiça em todos os atos e fatos da vida!
Assim, é só esperar, mas não por muito tempo, que a tecnologia será usada, para o bem das arbitragens e da ética do futebol.

MANOEL SERAPIÃO FILHO
Ex-árbitro FIFA – Filiado na Federeção Baiana de Futebol
Actual Membro e instrutor da Comissão de Arbitragem da CBF-Confederação Brasileira de Futebol

NOTA: Manoel Serapião, face à sua formação cívica, desportiva e académica, é um profundo estudioso das leis do futebol, razão porque me colocou algumas questões que tratei de desenvolver, ouvindo consagrados na matéria em Portugal.

Autor: Sérgio Corrêa

Árbitro na Federação Paulista de Futebol (1981-2001) e da Confederação Brasileira de Futebol (1989 a 2001); Ocupou cargos administrativos nos sindicatos entre 1990-93 e 1996-03, Eleito e reeleito presidente para dois mandatos: o primeiro compreendido entre 03/02/2003 a 08/04/207 e o segundo, de 09/04/2007 a 08/04/2011. Deixou a função para assumir a presidência da CA-CBF. Pela Associação Nacional dos Árbitros de Futebol ocupou os cargos de secretário-geral, entre 25/10/1997 e 13/05/2003. Já, na Comissão de Arbitragem, foi secretário-geral entre 25/10/2005 e 06/08/2007. Nomeado presidente da CA-CBF em duas oportunidades, a primeira entre 07/08/2007 a 22/08/2012, a segunda, de 13/05/2014 a 28/09/2016. Também foi diretor-presidente da Escola Nacional de Arbitragem de Futebol, entre 07/01/2013 a 12/05/2014. Atualmente, continua chefiando o DA (desde 22/08/12) e lidera o projeto de árbitro assistente de vídeo, nomeado junto a FIFA desde 15/09/2015.

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