Todos reclamam. Ninguém ajuda

FUTEBOL BRASILEIRO

O nível técnico do futebol jogado no Brasil há muito não encanta, a média de público é baixa e há um abismo em relação ao praticado na Europa. Mas qual é o papel dos principais atores do espetáculo diante desse cenário?

Paulo Galvão /Estado de Minas Roger Dias /Estado de Minas

postado em 16/09/2018 11:00 / atualizado em 16/09/2018 09:40

A realização de clássicos como Cruzeiro x Atlético e Santos x São Paulo, neste domingo, é um bom momento para se discutir não só a rivalidade, mas também o próprio futebol que vem sendo praticado no país. O Brasil consegue exportar bons valores, mas os que aqui ficam parecem contaminados pelo vírus da reclamação contra árbitros, simulação de faltas, brigas ou jeitinho para tentar ganhar os jogos. Pressionada, a arbitragem muitas vezes se perde na falta de critérios e de autoridade, se embanana até na hora de usar algo que deveria ajudá-la, como o auxílio eletrônico (VAR, na sigla em inglês), como se viu na vitória celeste sobre o Palmeiras por 1 a 0, pela Copa do Brasil. Já os treinadores, por sua vez, dão ataques de nervos nas áreas técnicas, infernizando a vida dos assistentes e do quarto árbitro. Para completar, os dirigentes se comportam de maneira infantil, ajudando a acirrar os ânimos e a tirar o brilho do espetáculo.

Tudo isso leva aos questionamentos de o Campeonato Brasileiro não estar entre os melhores e mais rentáveis do mundo. Também dá ideia de por que existe tanta dificuldade de o país voltar a ser campeão mundial de clubes ou mesmo a antes prestigiada Seleção Brasileira já não despertar o mesmo respeito de antes, principalmente depois dos 7 a 1 para a Alemanha, em 2014, e a campanha irregular no Mundial deste ano, na Rússia, onde foi eliminada pela Bélgica nas quartas de final. Nesse sentido, vale lembrar que o principal jogador do país, o atacante Neymar, está sendo mais lembrado pela simulação de faltas e pela conduta antidesportiva do que pelos gols e belas jogadas.

As partes reconhecem que podem contribuir mais, se comportar de forma mais adequada, que seria o primeiro passo para recolocar o futebol entre os melhores. “Quem causa mais problemas para a arbitragem hoje somos nós, jogadores, que queremos que todo lance seja favorável. Assim, o jogo fica aguerrido, sai da qualidade técnica e só tende a trazer coisas difíceis para a arbitragem. E o torcedor fica se achando no direito de colocar mais pressão, mais lenha ainda”, admitiu o goleiro cruzeirense Fábio depois da partida contra o Palmeiras, na última quarta-feira.

O técnico Mano Menezes também faz mea-culpa. E pede bom senso a todos. “Quando uma coisa não está boa, não é só um lado que não está fazendo bem a parte dela. Todos os envolvidos erram. A diferença é o que leva certas coisas a acontecerem. Quando saiu a arbitragem do jogo contra o Palmeiras (comandada por Wagner Reway), falei que o árbitro não era de primeira linha. Poderia fazer excelente arbitragem, mas quando você escolhe alguém que não é da primeira turma, causa desconfiança. E quando você começa a ouvir lá fora (o VAR), abre espaço para falarem mais com você. No jogo com o Flamengo (pela Copa Libertadores) ninguém falou com o árbitro (o uruguaio Andres Cunha). Por quê? Porque, logo no começo, ele chamou o jogador que ameaçou reclamar e reprimiu. E a partir dali tomou conta do jogo”, afirma o treinador, para quem esse tipo de discussão é sempre válida. “Todos nós podemos melhorar no Brasil. Sabemos como são as coisas aqui. Mas também não somos os piores do mundo.”

EQUILÍBRIO

O zagueiro atleticano Leonardo Silva acredita que é necessário que cada um dos componentes assuma sua responsabilidade para que os jogos se tornem melhores: “É preciso se concentrar apenas no jogo. Mas, às vezes, a circunstância se intensifica um pouco por erros que comprometem a tranquilidade ou a sequência na competição. Você pode perder um título ou pontos por erros. O atleta perde o controle. É preciso otimizar cada vez mais o padrão da arbitragem para que eles tenham tranquilidade em exercer o que sabem fazer, e nós respeitarmos a decisão. É tentar achar o equilíbrio e o respeito entre arbitragem e atleta para conseguirmos fazer o futebol ficar melhor e e o espetáculo prevaleça, e não a reclamação”.

Já o técnico Thiago Larghi admite que o nível dos jogos está muito abaixo do esperado, mas diz que que tem moldado o grupo para pensar apenas no jogo bonito, abrindo mão da violência ou das reclamações: “Temos que tratar o futebol como espetáculo, porque é o produto que vendemos. Temos que buscar um jogo agradável para o torcedor, prezando pela qualidade do espetáculo. E nosso time procura fazer isso. Ninguém nunca deve ter visto nosso jogador agredindo sem bola, dando cotovelada na nuca ou um soco na costela ou fazendo cera. Tentamos ser um time leal, que joga bola e com qualidade. Nossa torcida gosta disso. Violência não faz parte do futebol”.

ARBITRAGEM

Componente importante nos jogos, a arbitragem também entra na discussão a respeito do nível técnico do futebol, já que tem a incumbência de ditar a dinâmica dos confrontos e zelar pela disciplina dos jogadores. Mas os vários erros por decisões equivocadas têm provocado revolta e tumulto que deixam as partidas menos apreciáveis. O árbitro mineiro Ricardo Marques Ribeiro admite que há erros significativos em tomadas de decisões, mas entende que há falta de paciência e de respeito acima do normal com a arbitragem: “O jogador falha, dá um passe errado ou perde um pênalti e o goleiro leva um gol que não poderia levar. Todos não fazem por querer. E o atleta treina a semana inteira, se dedica para isso. Existe a limitação, que é natural do ser humano. Já o árbitro não pode errar, não é profissional, o que impede de fazer uma avaliação mais detalhada sobre os jogos, os erros e acertos”.

Ele também pede paciência com o VAR: “O instrumento é novo para o jogador e é novo para a arbitragem também. Ela passa por ajustes constantemente. Precisamos que todos compreendam que é um processo no futebol”.

Já o presidente da comissão de arbitragem da CBF, Sérgio Corrêa, condena a atitude antiética dos atletas e garante que a regra tem sido cumprido à risca para garantir um jogo mais bonito: “Os árbitros tentam ser rigorosos, mas os jogadores contestam além da conta. Ele deveria punir todo mundo, mas é dever do jogador respeitá-lo. A regra diz pra ele acrescentar todo o tempo que a partida ficou parada, quando um jogador demora para sair de campo ou finge contusão. Isso é falta de respeito e falta de educação. Acredito que o futebol é organizado. O problema está na sociedade. Ao desrespeitar o árbitro, o jogador mostra que um aluno também pode desrespeitar um professor”.

O QUE PREJUDICA O FUTEBOL DENTRO DE CAMPO


Confira algumas cenas comuns em jogos do Brasileiro

Reclamações em excesso
Violência
Discussões
Interferências dos treinadores junto ao quarto árbitro ou aos assistentes
Falta de critério da arbitragem em lances parecidos
Simulações de faltas e agressões
Falta de punição por simulação
Goleiro não respeita os seis segundos para repor a bola em jogo
Distância da barreira nas cobranças de falta
Tempo de acréscimo menor do que realmente ficou parado

https://www.mg.superesportes.com.br/app/noticias/futebol/futebol-nacional/2018/09/16/noticia_futebol_nacional,502909/todos-reclamam-ninguem-ajuda.shtml

Autor: Sérgio Corrêa

Árbitro na Federação Paulista de Futebol (1981-2001) e da Confederação Brasileira de Futebol (1989 a 2001); Ocupou cargos administrativos nos sindicatos entre 1990-93 e 1996-03, Eleito e reeleito presidente para dois mandatos: o primeiro compreendido entre 03/02/2003 a 08/04/207 e o segundo, de 09/04/2007 a 08/04/2011. Deixou a função para assumir a presidência da CA-CBF. Pela Associação Nacional dos Árbitros de Futebol ocupou os cargos de secretário-geral, entre 25/10/1997 e 13/05/2003. Já, na Comissão de Arbitragem, foi secretário-geral entre 25/10/2005 e 06/08/2007. Nomeado presidente da CA-CBF em duas oportunidades, a primeira entre 07/08/2007 a 22/08/2012, a segunda, de 13/05/2014 a 28/09/2016. Também foi diretor-presidente da Escola Nacional de Arbitragem de Futebol, entre 07/01/2013 a 12/05/2014. Atualmente, continua chefiando o DA (desde 22/08/12) e lidera o projeto de árbitro assistente de vídeo, nomeado junto a FIFA desde 15/09/2015.

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