CBF questiona AAV

2/04/2017 17h37 – Atualizado em 12/04/2017 17h37

CBF questiona interpretação do árbitro de vídeo e não define início dos testes

Manoel Serapião Filho, presidente da Escola Nacional de Árbitros, diz que a entidade máxima do futebol brasileiro não quer que as partidas percam a sua dinâmica

Por SporTV.com, Rio de Janeiro

Apesar de a CBF ter a intenção de fazer o uso do árbitro de vídeo no Campeonato Brasileiro deste ano, ainda não existe um prazo para começar os testes em gramados do país. Presidente da Escola Nacional de Árbitros, Manoel Serapião Filho vê questões ainda a serem resolvidas antes decidir pelo uso da tecnologia. De acordo com Serapião, é preciso aprimorar a novidade, já que o objetivo é fazer com que o jogo não perca a sua dinâmica.

– O árbitro de vídeo, no momento, no Brasil, ainda não temos previsão de iniciar. Primeiramente encaminhamos o projeto, que foi amplamente recepcionado, e o nosso projeto tem uma filosofia de não parar o jogo, impedir que o jogo perca sua dinâmica. Por isso, nós elaboramos um projeto limitado a quatro tipos de lances importantes que podem interferir num resultado da partida. Ou seja: gols ou não gols marcados, ou marcados irregularmente, pênaltis marcados ou não marcados, expulsões claras adotadas ou o contrário, injustamente adotadas, e a identificação equivocada de um jogador, que aí vai até pro cartão amarelo. O árbitro dá cartão amarelo para o número 6, e quando foi o número 5, o árbitro de vídeo, tendo a certeza, pode corrigir isso. O nosso projeto se baseia nesse conceito a que já me referi, de não paralisação. Ou seja: o árbitro de vídeo, tendo a imagem clara, e sendo um lance claro e indiscutível, e não de interpretação, comunica ao árbitro e o árbitro corrige o equívoco – disse, na tarde desta quarta, no “Seleção SporTV”.

Manoel Serapião Filho em teste do árbitro de vídeo na Suíça IFAB (Foto: Divulgação/CBF)
Manoel Serapião Filho participou de testes com o árbitro vídeo na Suíça (Foto: Divulgação/CBF)

O árbitro de vídeo – experiência que a Fifa inaugurou no Mundial de Clubes do Japão, em dezembro – voltou a ser usado em partida na Holanda no início deste ano. Lukas Brud, secretário da International Board (Ifab), órgão que cuida das regras do futebol, disse ao GloboEsporte.com, que o Brasil estaria entre as várias ligas do mundo com potencial para testar a novidade a partir do segundo semestre.

Manoel Serapião garantiu que o projeto apresentado pela CBF foi totalmente absorvido pela International Board e pela Fifa. Mas a entrada da interpretação da arbitragem contraria a decisão de não perder a dinâmica de jogo, já que em qualquer decisão a partida poderia ser interrompida para questionar uma decisão.

– Apesar de nosso projeto, no seu linguajar, ser totalmente absorvido pela International Board e pela Fifa, foi agregado do elemento interpretação. Ou seja: criou a possibilidade de o próprio árbitro, primeiramente, rever o lance de interpretação, o que, para nós, é um equívoco. Continuamos com essa visão técnica. Pode ser que amanhã estejamos errados. A CBF entende que neste primeiro grande passo teria que haver um certo limite até que a cultura do futebol absorvesse o uso da tecnologia, e que até hoje não é usada, exatamente desde a época do doutor João Havelange, no sentido de que o jogo não poderia perder a sua dinâmica. Então, nós construímos alguma coisa que fosse nesse caminho. Como a Fifa agregou a possibilidade de o árbitro analisar o lance de interpretação, isso quebrou a base da espinha dorsal do nosso projeto. E quebrou um outro sentido, de que agora o árbitro de campo é que terá o poder de decisão, o que para nós não faz sentido. Se a bola entrou e o árbitro de vídeo tem uma prova material e diga ao árbitro “a bola entrou”, não faz sentido o árbitro dizer “eu quero ver se entrou”. em outra palavras, ele estaria dizendo “não confio na sua visão”.

Serapião disse ainda que erros cometidos após a avaliação dos árbitros de vídeo podem acabar com o projeto. O dirigente lembrou que o fato já aconteceu na última edição do Mundial de Clubes da Fifa. Na partida entre Atlético Nacional e Kashima Antlers, o árbitro húngaro Viktor Kassai recebeu “ajuda” das imagens para a marcação de um pênalti, mas o juiz não conseguiu identificar que no mesmo lance havia também um impedimento a ser marcado.

Pênalti árbitro de vídeo Atlético Nacional Kashima Antlers (Foto: Reprodução SporTV)
Jogadores do Kashima Antlers em impedimento antes da marcação do pênalti (Foto: Reprodução)

 

– Vai acontecer o que já aconteceu no Mundial de Clubes. O árbitro tomar uma decisão equivocada. Isso vai matar o projeto e será muito ruim. E nós estaremos indiretamente substituindo o árbitro de campo pelo árbitro de vídeo (…). Então, isso pra nós não faz sentido e atrasou um pouco o projeto. Eu como instrutor técnico e o Sérgio Corrêa como o líder do projeto, que envolve aspectos administrativos e financeiros e de seleção das equipes de televisão que estão fazendo o trabalho. Fizemos esse lançamento, mas a Fifa manteve somente o projeto, e a CBF, agora, terá que implementar, submeter-se ao projeto único da International Board.

O dirigente afirmou que a CBF já está pesquisando com várias empresas equipamentos para serem utilizados durante os testes, em uma espécie de licitação. Serapião, porém, voltou a afirmar que ainda não existe um prazo para finalizar o processo.

– A CBF é obrigada a fazer uma pesquisa entre empresas, um processo de licitação. Primeiramente estamos analisando as equipes. Fizemos com a Globo e outras empresas. A CBF está pensando nela própria adquirir os equipamentos.

A ideia do presidente da Fifa, Gianni Infantino, é realizar testes em diversas competições durante a temporada europeia 2017/18 para implementar o árbitro de vídeo na Copa da Rússia, em 2018.

Manoel Serapião Filho, diretor técnico da Enaf (Foto: Reprodução/CBF TV)Manoel Serapião diz que a CBF ainda estuda uma melhor forma para usar o árbitro de vídeo(Foto: Reprodução/CBF TV)

Autor: Sérgio Corrêa

Árbitro na Federação Paulista de Futebol (1981-2001) e da Confederação Brasileira de Futebol (1989 a 2001); Ocupou cargos administrativos nos sindicatos entre 1990-93 e 1996-03, Eleito e reeleito presidente para dois mandatos: o primeiro compreendido entre 03/02/2003 a 08/04/207 e o segundo, de 09/04/2007 a 08/04/2011. Deixou a função para assumir a presidência da CA-CBF. Pela Associação Nacional dos Árbitros de Futebol ocupou os cargos de secretário-geral, entre 25/10/1997 e 13/05/2003. Já, na Comissão de Arbitragem, foi secretário-geral entre 25/10/2005 e 06/08/2007. Nomeado presidente da CA-CBF em duas oportunidades, a primeira entre 07/08/2007 a 22/08/2012, a segunda, de 13/05/2014 a 28/09/2016. Também foi diretor-presidente da Escola Nacional de Arbitragem de Futebol, entre 07/01/2013 a 12/05/2014. Atualmente, continua chefiando o DA (desde 22/08/12) e lidera o projeto de árbitro assistente de vídeo, nomeado junto a FIFA desde 15/09/2015.

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