LEI DA RECIPROCIDADE

evandro-roman-18-08-2015

LEI DA RECIPROCIDADE – 24 de maio de 2007

Reciprocidade, o “velho dar e receber!”, como queiram os estudiosos da arbitragem brasileira. Este artigo tem a finalidade de esclarecer a todos os árbitros de futebol do Brasil, que toda a ação de um clube dentro deste esporte tem seus interesses obscuros e velados.

Com um pequeno gesto ingênuo, sem qualquer interesse aparente, de enviar uma camisa do clube (mandante ou visitante) ao vestiário dos árbitros antes de cada partida, desencadeia mentalmente em alguns colegas (mesmo que inconscientemente) a lei da reciprocidade.

Na arbitragem, essa lei é velada, mas no mundo real, nas ciências como o próprio direito, se encontra muito presente. A ciência do direito serve muitas vezes aos árbitros de futebol fornecendo princípios (boa-fé; legalidade, que seria a vinculação dos árbitros a regra do jogo; discricionariedade que seria fazer um juízo de oportunidade e conveniência de se aplicar ou não a lei da vantagem ou dar a falta, dentre outros, como o da reciprocidade).

Não nos chamam de juízes? Sabemos que não o somos, e repelimos prontamente: “árbitros de futebol”, essa é a terminologia correta. Mas, o que seria essa lei da reciprocidade? Em direito, é amplamente aplicada no direito internacional.

Quem não se lembra do período em que os Estados Unidos estavam exigindo dos brasileiros um cadastro a ser feito logo no desembarque destes nos aeroportos americanos? Pois então, o Brasil também, na ocasião teve o direito de cadastrar os americanos quando aqui desembarcavam, o que provocou protestos destes, teve até um deles que ao ser fotografado para o cadastro fez um gesto obsceno para a câmera e foi preso, no aeroporto mesmo, pela polícia federal. Ate aqui tudo bem, mas o que isso tem a ver com a arbitragem? Perdoem-me, lhes digo: TUDO!.

Ao receber um presente, aciona-se no cérebro do árbitro o princípio da reciprocidade (repito, mesmo inconscientemente) que provocará uma sensação de divida na equipe de arbitragem, sem o menor consentimento do árbitro. Explico:

Em se tratando de um ser humano, que reage com surpresa ao receber algo “sem interesse”, gostaria de continuar a escrever, e dizer que há interesse sim! Embora com alcance pequeno entre os árbitros, isto é letal quando age!

Esta crônica mostra a ação de uma das mais potentes armas de influência e persuasão à nossa volta – a regra inconsciente da reciprocidade.

Mesmo velada em nosso subconsciente, esta, nos diz, a todo o momento que devemos  retribuir, na mesma moeda (favores), o que outra pessoa nos proporcionou.

Volto a dizer, esta regra NÃO está sob nosso controle, consentimento, aprovação, ou na parte consciente de nosso cérebro, e sim no inconsciente. E quem sabe, também no inconsciente do representante do clube que fornece o presente!

Conforme teoria Freudiana, compara-se o cérebro humano, a um iceberg. Considerando a parte consciente de nosso cérebro o que esta fora da água, e conseqüentemente o inconsciente o submerso, que é aproximadamente 95% do bloco de gelo. Então nos leva a crer que temos um cérebro, que age com este mesmo percentual de forma inconsciente, ou seja, automatizado! Área cerebral que não controlamos!.

A forma como fomos educados desde nossos primeiros dias de vida, de sempre retribuir a um gesto cortes de tratamento com a mesma cortesia, sem desapontar a gentileza que nos foi atribuída, nos leva a adquirir valores que ficam nesta área inconsciente de nosso cérebro, como por exemplo:

1 – Se alguém nos faz um favor, devemos retribuir fazendo um favor e este;

2 – Quem não se lembra daquele amigo, tio, primo, cunhado…, que mandou um presente de aniversário, mesmo distante!. Esta ação nos deixa um compromisso inconsciente e também social, pois as boas normas da convivência social, recomendam de lembrarmos com elegância do aniversário dele, retribuindo também com um presente.

Devido à existência da velada lei da reciprocidade na arbitragem,  somos humanamente “obrigados” a retribuir futuramente, favores, presentes, convites e coisas do gênero gentilmente-correto.

Se soubéssemos que temos esta pressão mental, como seria a retribuição de um árbitro de futebol que recebe gentilmente uma camisa de um clube? Retribuiria sendo honesto? Digno? Correto? Não! Isto é apenas obrigação nossa! Então porque vamos dar margens para brigarmos com nosso interior mental, mesmo de forma inconsciente. O melhor é não receber nada e ponto final! Mas que atire a primeira pedra quem nunca recebeu uma camisa após uma partida!.

O aspecto mais impressionante da lei velada da reciprocidade e da sensação de obrigação que acompanha é sua universalização de forma geral, na cultura humana, e não apenas no meio da arbitragem de futebol. Ela é tão levada a sério que, após muitos estudos, como Alvin Gouldner, já em 1960, relata que:

não há sociedade e/ou organização humana que não respeite esta regra”.

Será que como árbitros de futebol, estamos acima de uma vulnerabilidade como esta? Somos superiores ao bem e o mal? É claro que não! Sofremos as mesmas conseqüências desta lei como todos.

Quando erramos argumentamos, que somos humanos, que estamos arbitrando um jogo, que é também jogado por humanos. Mas somos incapazes de aceitar uma limitação como esta (já acreditando que haverá muitas críticas a esta produção), somente por não ser algo explicito que não possa ser ainda mensurado por todos, a exemplo do erro técnico e disciplinar que fica sob avaliação social!

Não podemos negar a existência da ciência dentro da arbitragem de futebol no mundo contemporâneo! Esta deverá trabalhar em prol do desenvolvimento do homem que atua nesta função, potencializando suas qualidades e minimizando as fragilidades.

O renomado arqueólogo Richard Leakey, atribui à essência do que nos torna humanos ao sistema da reciprocidade:

Somos humanos porque nossos ancestrais aprenderam a dividir seu alimento e suas habilidades em uma respeitada rede de obrigações recíprocas

Então, prudente seria, dizer mais uma vez que não estamos falando de desonestidade, mas de algo que carregamos em nosso DNA,  a milhões de anos, e nossa consciência, que à apenas 1% da existência humana, vive sobre um mundo ordenado e civilizado, deixando os  99% de nossa estada na terra para ancestrais  semelhantes primitivos.

Portanto, o que fazer quando recebemos em nossos vestiários uma camisa de um clube como uma cortesia? Somos sabedores que todos nós em algum momento de nossas carreiras já ganhamos um presente destes! Presente este que nos deixa de certa forma felizes, pois enxergamos nele a possibilidade de presentear um amigo, um vizinho, irmão que é torcedor daquele time de futebol, ou que é colecionador de camisas.

Sabemos que receber uma camisa de futebol diretamente do clube, traz a quem a veste, ou a quem a guarda como lembrança  uma sensação muito agradável de exclusividade, de possuir algo raro, precioso. Esta alegria nos comove, mas ao mesmo tempo nos causa angustia de ter recebido algo que ainda não está regulamentado, se pode ou não!

Mas o que fazer de agora para frente?

E em que momento, se caso liberados forem os árbitros a receberem presentes, deverá ser realizada tal gentileza pelo clube? A resposta talvez seja o livre arbítrio, aquele que todos temos, e que nos torna livres e senhores de nossas escolhas. Porém temos de ter consciência que somos responsáveis pelas escolhas que fazemos, e pagamos por elas.

Assim sendo, tenho comigo uma certeza: jamais, repito novamente, JAMAIS, se deve receber uma camisa antes de uma partida, para que você não seja atormentado ou mesmo traído pelo seu EU, durante o jogo  pelo seu vasto inconsciente, acreditando que têm algo a retribuir.

Mas, mais grave ainda são os favores recebidos ao longo de uma carreira de árbitro, favores estes que se tornam muito caros ao longo  do tempo.

Aquela ajudinha recebida por este ou aquele dirigente de federação, clube, político influente, poderá lhe custar a carreira! E não sou eu quem digo isto! E sim a história de alguns árbitros que já se foram, inclusive alguns muito recentes.

Para encerrar, gostaria de dizer que o favor de um modo em geral na vida custa caro, pois em algum momento de nossas vidas ele será lembrado e cobrado. Chegado este momento do pagamento haverá duas situações:

1 – Você vende a alma ao diabo e paga o favor, e monta uma fábrica de resultados, montando uma rede de franquias por vários estados brasileiros, ou seja, torna-se ladrão mesmo! ou

2 – Você diz não para àquele ser gentil que lhe estendeu a mão no passado, no momento em que você mais precisou, aquele que sem ele você não seria nada, afinal ele lhe colocou lá, no tão sonhado posto, com o tão sonhado escudo, e acorda dia seguinte sem o que lhe deram por um simples favor.

Amigos árbitros de todo o Brasil, este período negro da arbitragem (política) brasileira já passou!

Temos de criar uma rota sem favores, colisões, conchavos politiqueiros, que por muito tempo presentearam alguns despreparados para assumir escudos, em troca de um simples favor, sem qualquer interesse! Será?

Lembre-se sempre ao aceitar tal gentileza, que na vida se os favores custam caro, na arbitragem este custo é anos-luz mais oneroso, pois custa sua dignidade também. Mas você tem em seus valores a opção da escolha, uma vez feita a opção, isto será como uma chancela em sua testa. Reflitam!!

Evandro Rogério Roman escreve mensalmente no site da Escola Brasileira de Futebol

Doutor em Educação Física/UNICAMP

Coordenador do curso de Educação Física/FAG

Foi Árbitro de Futebol da FIFA/CBF/Paraná

Atualmente: Deputado Federal

 

Autor: Sérgio Corrêa

Árbitro na Federação Paulista de Futebol (1981-2001) e da Confederação Brasileira de Futebol (1989 a 2001); Ocupou cargos administrativos nos sindicatos entre 1990-93 e 1996-03, Eleito e reeleito presidente para dois mandatos: o primeiro compreendido entre 03/02/2003 a 08/04/207 e o segundo, de 09/04/2007 a 08/04/2011. Deixou a função para assumir a presidência da CA-CBF. Pela Associação Nacional dos Árbitros de Futebol ocupou os cargos de secretário-geral, entre 25/10/1997 e 13/05/2003. Já, na Comissão de Arbitragem, foi secretário-geral entre 25/10/2005 e 06/08/2007. Nomeado presidente da CA-CBF em duas oportunidades, a primeira entre 07/08/2007 a 22/08/2012, a segunda, de 13/05/2014 a 28/09/2016. Também foi diretor-presidente da Escola Nacional de Arbitragem de Futebol, entre 07/01/2013 a 12/05/2014. Atualmente, continua chefiando o DA (desde 22/08/12) e lidera o projeto de árbitro assistente de vídeo, nomeado junto a FIFA desde 15/09/2015.

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